sábado, 29 de outubro de 2016



VESTÍGIOS AÇORIANOS    
           testemunhando contos 
                          Farroupilha 

Batalha do Barro Vermelho - 30 de abril de 1838
 
Em Rio Pardo, cidade onde encontra-se muitos prédios em estilo luzo açoriano, a revolução farroupilha tem uma das suas maiores vitorias num conflito envolvendo cerca de 5 mil homens. 



Estas histórias  são confidenciadas  através  de mudos diálogos entre mim e paredes , aflorando sensações. Antigas construções me atraem   até elas. Em seus interiores tento ficar só, tocar  as paredes, sentindo-me  parte delas.  Na medida em que me distancio, elas  suplicam por minha companhia e aguardam ansiosas  meu regresso. È o mesmo que afastar-me  da minha própria casa.
De volta   ao lar, percebo-me  hóspede, pois  meu lugar é onde a brisa dos pampas me leva.  Amparada pelo livre conduto, na condição de artista, permito-me  delirar. Diante do  computador, ferramenta de trabalho, a imaginação parece guiada,  Impulsiona, digito  palavras  fluidas  naturalmente, como água cristalina jorrando  de fonte inesgotável.
Escuto  sussurros da brisa lá fora, varrendo  pampas distantes de mim, trazendo consigo  aflitos fantasmas ,  desejando contarem  segredos.  Abro a janela, deixo-os entrar, apago as luzes, ascendo uma vela,  a conexão traz o passado de volta.   








Rio Pardo;  Paredes que murmuram   




Naquela noite,30 de abril em 1838, a  cidade imperialista seria  atacada; o confronto entre maragatos e chimangos foi  inevitável. Ela, trancada em seu aposento, sufocava o pranto e rezava; sabia que o  pai, bravo comandante   do exército elegantemente fardado, não hesitaria em manchar  os lenços brancos com  sangue dos revolucionários farroupilhas.  Constança  jamais confessou seu amor por aquele jovem soldado,  vestindo farda puída, bordada de ideais. Inadvertidamente ele sustentou o tímido  olhar da donzela, arrancando-lhe discreto sorriso quando  ousou  ofertar-lhe um botão de seu  dolmã. A beleza do gesto  e ausência  de  grandes emoções  de uma  vida regrada, contrariando anseios do  romântico coração , fez a menina sonhar.  Foram  noites e noites em claro, embaladas por murmúrios da brisa dos pampas, inspirando proibidos desejos, despertando sentinelas dos pesadelos de guerra. A janela do aposento, a noite, sempre trancada, compassiva  oferecia a menina  variáveis  espetáculos vislumbrados  através de restrita fresta. A Lua inspirava ardentes fantasias, fazendo a donzela desejar ser aquela fenda, penetrada  por   aragem da noite.  Constança  precisava de  um rosto pra dar veracidade as suas  fantasias,  escolhendo  aquele rapaz. Crendo  que ele  libertaria  escravos de cativeiros,  arrancaria donzelas de seus  aposentos, poria em práticas idéias escritas em livros  e  de um rincão negligenciado pelo império, tornaria republica independente, ela  apaixonou-se pelo herói  criado em sua imaginação.  A brisa trazia até Constança os ruídos da guerra. A menina que ocupava os dias bordando, a noite, desejava ser mulher. Para ela, pouco importavam  os motivos da guerra,  queria a paz trançada entre os lenços, comemorada  em jantar de noivado. No campo de batalha, algumas léguas da cidade,  o jovem maragato  lutava pela vida, tentando desviar-se  das lanças e tiros de fuzis. O jovem soldado nem lembrava de Constança, tão pouco sabia o nome da jovem que sonhava com ele. Mas o disparo de um   tiro certeiro, trouxe-a como um anjo para junto dele.  Tombado de seu cavalo, ele sente o ferimento. Na tentativa de estancar o sangue, põe a mão no peito, sentindo a falta do botão. Surge em sua mente o rosto de Constança  iluminado por  doce sorriso, sendo esta a ultima lembrança  do soldado, antes de ser socorrido por Bento Gonçalves . A  batalha enfrentada por cerca de cinco mil homens, foi uma das maiores vitorias dos rebeldes gaúchos. A noite, cinco mil mulheres esperaram por eles.  Os que regressaram  enfrentavam batalhas mais amenas, nos braços de suas amadas, entre paredes que murmuram histórias de muitas vidas.  
Denize Domingos 







Rio Pardo


Esta residência em ruínas, testemunha uma bela  construção do período  colonial, encontra-se  interditada, em estado avançado de decomposição, amparada por escoras  oferecendo  risco de desabamento. Numa de suas vigas,  uma fenda na extensão de quase todo o segundo piso,  com       aproximadamente 9 cm, de largura, numa   envergadura bem maior,  evidencia a inclinação  da parede lateral; que considerando minha imprudência,  manteve-se firme diante de mim, enquanto seus fantasmas  contavam-me  historias.  








vídeo; Origens / Guerra dos Farrapos 


Durante o andamento  do  projeto Vestígios Açorianos, visitando diversas cidades gauchas,  surgiram outros  interesses; foram estabelecidos elos entre  lugares e pessoas. Com  alegria, continuarei ligada a estas cidades, contando historias sobre elas,  Agradeço especialmente   ao meu marido Gerson Paulo Jung,  companheiro de vida e viagens, tornando meu trabalho ainda mais agradável. De  forma  carinhosa e criativa, registro aqui  minhas impressões  destas  querencias distantes.