Dia 30 de outubro, enceram-se as viagens de pesquisa de campo, fotografando as 14 cidades participantes do projeto. Ficará a critério da produtora cultural Renata Beker, as publicações referentes a publicidade e visitas a entidades apoiadoras do projeto.
Depois de ter escolhido as cidades de colonização açoriana, viajado no tempo... me inspirei numa antiga penteadeira, um diário encontrado em uma das gavetas juntamente com um bloco de cartas.
Passeando no Brique da redenção, esbarrei na seguinte placa:
VENDE-SE
Barbada
Penteadeira com algumas lascas na madeira e manchas de tinta, aparente foco de cupim, corroendo o mogno, necessitando de urgente restauro. Leva de brinde um bloco de cartas e diário em branco, com alguns desenhos em grafite, sem assinatura.
Inclui Frete
R$ 140,00 Aceita-se troca
Imagens compartilhadas da internet
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Vestígios Açorianos
Um pouco de realismo a ficção
A COLONIZAÇÃO AÇORIANA NO RIO GRANDE DO SUL
(1752-63)*
...Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, "não é de admirar, com semelhantes disposições, que a viagem se transformasse num verdadeiro tormento, principalmente para as mulheres para as crianças que lhes faziam companhia, as quais, não poucas, não puderam resistir, adoecendo e morrendo durante os meses da travessia". Infelizmente, "muitos dos que abandonaram as ilhas na esperança de melhores dias no Brasil desejado, foram sendo sepultados nas águas do Atlântico, com os seus sonhos e com as suas ilusões. E os que resistiram chegaram ao seu destino como verdadeiros espectros". Com a deterioração da água após poucos dias e com a alimentação "exclusivamente composta de gêneros em conserva, pobre de víveres frescos, começassem já os viajantes a sofrer as conseqüências, com o aparecimento das mais variadas afecções. Na promiscuidade dos alojamentos, as afecções iam passando de uns para os outros. Surgia a parasitose. Surgiam as disenterias. E, com o decorrer dos dias, quando a viagem se adiantava, em meio do caminho entre o céu e o mar, aparecia o pior: o mal de Luanda". O pesquisador da temática açoriana João Borges Fortes, no livro Casais, relatou que, em 1750, Francisco de Souza Fagundes substituíra Feliciano Velho Oldenberg no transporte dos açorianos ao Brasil. Porém, o tratamento não melhorou. Um navio levava até três meses de viagem até à Ilha de Santa Catarina, e, quando nesta chegava, "eram doentes, mortos e moribundos no meio de um montão de estropiados que desembarcavam, num desfile tétrico ante o povo e autoridades". Manuel Escudeiro de Souza, governador da Ilha de Santa Catarina, fez um relato ao rei sobre um desembarque dos migrantes. "Três navios haviam chegado com pouca diferença um do outro. O último aportou no dia 20 de janeiro (1750), trazendo mortos 10 adultos e dezesseis crianças, outros morreram ao desembarcar, e 130 se recolheram doentes a dois hospitais, com malignas e correição escorbútica."Borges Fortes também se refere à desgraça que atingiu duas outras embarcações: "A 23 e 25 de maio desse terrível ano de 1753, ocorreu o doloroso naufrágio de duas sumacas carregadas de famílias açorianas que se encaminhavam para o Sul. O trágico acontecimento deu-se na barra Sul de Santa Catarina, na ponta da Ilha, que desse fatal sucesso recebeu o nome sinistro de Ponta dos Naufragados. Dos infelizes náufragos, só se salvaram 77 pessoas, que tudo perderam do que lhes pertencia, tendo de recorrer à bondade de seus semelhantes e do governo local, sendo todos de manifesta generosidade para com os desgraçados. Desses 77 salvos, poucos foram para o Rio Grande, a maior parte preferiu estabelecer-se na Vila Nova da Laguna, hoje cidade de Imbituba. Temos portanto, positivamente, que, até o ano de 1753, a estatística de 278 casais entrados no Rio Grande não sofreu oscilação sensível, portanto os desastres marítimos não permitiram acrescentar o saldo das remessas".
Constata-se que a viagem era o primeiro grande desafio a ser vencido. Tanto na rota Açores-Santa Catarina quanto na viagem em embarcações menores para Rio Grande. Desafio que seria acrescido de outros, ligados a posse da terra, à produção agrícola, à adaptação.....
Parcial Texto de Luiz Henrique Torres
Imagem retirada de algum blog
A história factual frequentemente difere da história oficial , registrada em livros, muitas vezes tendenciosos. Os muitos açorianos que embarcaram em contingentes navios, enfrentaram condições precárias. Ariscaram-se em busca de seus sonhos e futuro melhor. Mas cada um, fez a sua própria história, intima e singular, de acordo com motivações, valores pessoais e morais, indescritíveis e incompreensíveis, pois trata-se de emoções e não apenas fatos e datas. Algumas pessoas me questionaram porque eu não ressaltei a alegria, coragem e otimismo característico do povo açoriano. ... É que aqui neste blog,procuro resgatar fragmentos,possibilitando uma breve reflexão por parte daqueles que possivelmente, nunca enfrentaram um naufrágio, estando acostumados a desbravar o mundo incógnitos, navegando em segurança nos mares da internet, ou em transportes seguros, em primeira classe, ou ainda, de carona, como curiosos turistas. Viajantes dos mares , ares, estradas, das janelas e do tempo, estamos apenas de passagem neste mundo, tão carente de compreensão, afetos e poesia.
Denize Domingos
Imagem retirada de algum blog
Tempestade em Alto mar, YouTube
O sonho
Madre Deus
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Vestígios Açorianos
Histórias que se perderam no tempo
Preparo-me para iniciar a próxima etapa deste trabalho, visitando catorze cidades participantes do projeto. Será exposto neste blog as imagens registradas. Previamente selecionei alguns municípios de colonização açoriana, havendo "ancorado" em cada uma delas. Com um olhar atento a tudo que remete ao passado, me deixo levar no tempo. Crio supostas histórias, podendo ou não, terem sido vividas por alguma imigrante que zarpou da ilha do faial, mas continuou presa a ela, sonhando com noites de lua cheia, embaladas por canções com cheiro de mar.
Imagen de algum blog
Em algum antiquário
... Exposta num antiquário, dispersa em um canto pouco iluminado, a penteadeira do século XVII em bom estado, apresentava algumas marcas na madeira. Mas uma manchaazul anil, contrastando com o tom avermelhado do mogno chamava a atenção. Certamente, o móvel apropriado para guardar perfumes, jóias, escovas e outros objetos pessoais, havia sido usado como escrivaninha, por alguém que via a própria imagem refletida diante do espelho enquanto registrava suas memórias . A mancha de tinta sugeria diversas situações: Distração de quem manuseava a pena, sonolenta,esbarrou sobre o tinteiro. O descuido de uma criança. ou quem sabe, um movimento brusco, de quem foi flagrada anotando pensamentos. Ao lado do clássico móvel, um baú atraia a atenção de quem procura curiosidades, contando histórias parcialmente reveladas através de pequenos objetos, fotografias, e pedaços de vida manuscritas em paginas desmembradas de um contesto.
Noite de Tempestade em alto mar
.... Sonhava que os lençóis eram as ondas do mar, e tuas mãos mantinham aquecido o meu corpo. Em meus sonhos, o mar transborda, chegando bem próximo de mim, onde quer que eu esteja. A cada légua que me distancio da ilha do Faial, meu coração vai se fragmentando, sinto-me como o arquipélago dos açores, depois de sofrer um grande abalo sísmico. Acordei com gritos, é noite de tempestade, o barulho das ondas jogando-se furiosas sobre o navio, esta desestabilizando a embarcação. Estamos próximos do continente brasileiro. Um rochedo inclemente, espera que o barco se choque contra ele, para que a filha de Portugal seja lançada ao mar. Tranquei-me na cabine, só eu e meu diário, rabisco absurdas palavras enquanto penso que o barco vai afundar.
Meu querido diário...
guardo em tuas folhas meus segredos, manuseando habilmente a colorida pena de falcão, afogando o rígido bico de metal impetuosamente mergulhado no solicito tinteiro. Livro de fantasiosas histórias, deito em ti minhas palavras, inundadas de sentimentos. És vós, o leito das minhas intempestivas emoções, expressas em frases, delineadas pelo bico de pena sobre o papel. Entre eles, há a leveza da pluma, a metódica das linhas, e um infinito abismo que os separa. O paralelo mundo traçado no papel, torna inacessíveis as palavras. Este imensurável vazio, me diz do tempo que passa tão veloz e o silencio que berra em meus ouvidos.