Valorização da cultura açoriana, retratada em placas de cerâmica similares aos antigos azulejos portugueses.
Diferentes estilos arquitetônicos, marcam a contribuição de outros povos que vieram colonizar o Rio Grande Do Sul. Estampando azulejos em estilo português, a integração entre estas culturas são retratadas através da eclética arquitetura. Demonstrando a marcante influencia da arte açoriana, modernas construções e cartões postais das cidades, são transformados em antigos azulejos coloniais, estabelecendo elo entre o passado e presente. As placas são também um presente as cidades integrantes do projeto Vestígios Açorianos, que procurou encontrar mesmo em cidades colonizadas por outros povos, alguns vestígios deixados por imigrantes que tenham passado ou se estabelecido nestas cidades.
Agradeço aos participantes do projeto, foi uma grande alegria conhecer tantas pessoas e cidades, estabelecendo vinco com elas.
Por algumas, me apaixonei; Piratini, Rio Pardo, Canguçu, cidades históricas, inspiraram um novo trabalho literário. Das quatorze cidades contempladas, somente duas não demonstraram interesse em receber as placas. portanto, as peças referentes as cidades de Rio Grande e Jaguarão, serão doadas ao Museu Açoriano Rio Grandense, que fará uso apropriado. Concluir um trabalho tão desafiador, tendo dificuldade em algumas cidades em conseguir autorizações das instalação das peças, é sempre um alivio. Mas é também uma sensação boa, de dever cumprido. Quando retornei as cidades, algumas placas haviam sido depredas, ficara a lembrança e a poesia das cartas de imigrantes, publicadas aqui. Aos interessados em saber por que alguns camponeses deixaram famílias nas ilha dos açores e embarcaram em contingentes navios; desvendem este blog.
Denize Domingos
terça-feira, 29 de novembro de 2016
CONTOS DA BRISA DO SUL Em memória aos lanceiros farroupilhas
Promessa de Liberdade
O Massacre dos Porongos
Em novembro de 1844, a fonte milagrosa de Cacimbinhas tornou rubras de vergonha suas águas. A traição manchou a história vertendo lágrimas de sangue nos olhos da imagem da santa Nossa Senhora da Luz. Apagaram-se as estrelas do pampa, alguns generais ficaram cegos de ambição. Época dos jasmins desabrocharem nos canteiros das casas grandes, mas não nascera livre em todo o pago a branca flor. Brisa, a cigana dos pampas colheu nas coxilhas braçadas de flores do malmequer. Depositou-as sobre cerca de 800 corpos estendidos no chão e soprou sobre eles a poeira vinda do continente africano. Devolveu aos cidadãos descendentes da África lembranças da pátria onde seus ancestrais eram livres. As mãos do mar não alcançam o pampa gaúcho, os escravos repousam em terras onde foram escravizados, sepultados em vala comum. Sem cruz nem identificação, jaz o corpo de oitocentos lanceiros. Enfim, conquistaram a paz!
Lanceiros Negros
O Despertar da Sentinela
Subitamente foi ceifada a vida do escravo sonhador, sem chance de defesa. A Brisa do Sul escutou o agonizante suspiro do homem negro, morto ao lado de outros lanceiros. Ele tenta-va se reerguer e continuar lutando com outros soldados, em troca da alforria. A cigana toca o rosto do guerreiro, tentando libertar a alma cativa do escravo. Quando foi armado pelo Exército Farroupilha, retiraram dos seus pulsos as algemas. Agora, continua preso a um corpo sem vida, procurando sua lança. Aquela foi a última batalha da Revolução, nos pagos gaúchos não há mais soldados lutando, só se escuta lamento! Nenhum Farroupilha, vivo ou morto, comemorou o fim da guerra! Em farrapos, fantasmas dos soldados mortos na revolução galopam seus cavalos, cavalgando livres nos pagos sem fronteiras, seguindo o Negrinho do Pastoreio.
Passaram meses depois daquela madrugada de primavera, o guerreiro sonhador é o único lanceiro que continua cativo. Crendo na promessa feita aos escravos, não escuta a Brisa dos Pampas sussurrando em seus ouvidos.
— Desperta do sonho de liberdade, sentinela Farroupilha, traiçoeiramente tombada. Morreste em emboscada, quando tua lança longe de ti repousava. Lanceiro Farrapo, teu suor não foi o bastante para enriquecer poderosos senhores, pagando altos impostos por fardos de charque que carregavas em tuas costas. Nos saladeiros, trabalhastes carneando gado, salgando a carne; na senzala, amargava tua sina.
Desperta do sonho, transformado em pesadelo, verás a pa-ga que recebestes por ter acreditado em ideais de generais.
A reforma que almejavam, era política e tributária. Queri-am livrar o Rio Grande das altas taxas de impostos cobradas pelo Império. Donos de escravos não são abolicionistas.
Desperta lanceiro, enfim, és homem livre!
Desfigurado, teu cadáver banhado em poça de sangue já descansa em cova rasa, sob solo Farroupilha. Após dez anos de revolução, a República foi devolvida ao Império. Sentinela Rio-grandense, desvenda os mistérios daquela vergonhosa noi-te no Cerro de Porongos.
A paz já foi lavrada em documento, formalizada entre Imperador e general republicano, tornando-os aliados.
Tecida em vantajosa trama, o tratado do Poncho Verde se-lou a paz entre senhores da guerra.
Uma negra sombra encobrindo verdades e calúnias pairou sobre o Rio Grande. Lanceiro, foi assinado com negro borrão de tinta o acordo do Ponche Verde manchando a história, de-sonrando a cor da tua pele e o lema da revolução.
Os cidadãos escravizados lutaram por liberdade, diferente daquela que Bento Gonçalves pregava. Promessas de senhores feitas aos negros de nada serviram. Livres, escravos não teriam valia aos senhores a quem serviam.
A promessa de alforriar os negros que lutaram em frente às tropas republicanas, seria um impedimento para firmarem o tratado de paz.
Mortos, os negros soldados bem treinados, exímios cava-leiros, não representariam ameaça, nem cobrariam seus direi-tos. O empasse foi resolvido na madrugada de 14 de novem-bro, em 1844. Davi Canabarro retirou dos lanceiros suas armas. Surpreendidos em emboscada, foram dizimados por tropas im-periais, sob comando de Pedro Abreu, o Moringue. O Barão de Caxias o havia instruído sobre formas de pacificar guerras. Na mesma madrugada, enquanto ocorria o massacre, Canabarro descansava na tenda, aos braços da amante Papagaia.
Meses após a última batalha Farroupilha, enfrentada sem resistência, em dezembro de 1845, o tratado de unificação foi assinado.
A paz do Poncho Verde se estendeu sobre coxilhas man-chadas com sangue africano. Num canto da consciência, crimes de guerra são sepultados e foi prescrito o julgamento de Cana-barro, jurando inocência.
Pesando sobre seu peito, general Bento Gonçalves usou to-das as medalhas condecoradas por Dom Pedro I, apresentando-se ao regente do Império, Dom Pedro II. Curvando-se diante do Imperador de 20 anos de idade, o herói Farroupilha, Bento Gonçalves, ofereceu-lhe a espada, entregando-lhe também a República Rio-grandense. A província havia sido separada do resto do Império do Brasil, sendo proclamada nação indepen-dente pela voz do general Antônio de Sousa Neto, após grande vitória de suas tropas na Batalha do Seival. Posteriormente, Bento Gonçalves recebe a notícia de ter sido aclamado Presi-dente. Das mesmas mãos que recebeu a República, escapa dez anos depois.
Silenciaram-se os gritos do general à frente das tropas or-denando: Avante, Farroupilhas, por uma República livre!
Bento Gonçalves, antes da morte, deixa inventário com cinquenta e três escravos aos herdeiros.
Murmura triste a Brisa, percorrendo campos de batalha. Em ermas madrugas, ela ouve protestos dos Farroupilhas que morreram honrando o lema re-publicano.
Verdades e calúnias pairam sobre o Rio Grande. O vento derruba frágeis paredes e alambrados, desmorona taperas, sólidas construções resistem, desvendando mistérios.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Contos Farroupilhas
A literatura reinventando historias do Rio Grande do Sul.
Texto publicado na obra literária Janelas para o Mar
contos da Brisa do Sul/ Denize Domingos
Anita Garibaldi; só o mar a viu chorar
Enfurecidas pela tempestade, as águas ligadas por rios, la-goas e canais, engoliram o lanchão Farroupilha, conferindo a fama de má sorte ao general Bento Gonçalves. Alguns afoga-dos foram tragados para o fundo das águas junto com o barco, não havendo tempo para lamúrias. Navegando as mesmas águas, o Seival traz por mar os soldados Farrapos e seu famigerado corsário Garibaldi, invadindo a cidade, surpreendendo imperiais.
Foi tomada a cidade de Laguna, em 22 de julho de 1839. Poucos dias depois, em 29 de julho do mesmo ano, foi proclamada a República Juliana. Não havendo contingente territorial com a República Rio-Grandense, a República Juliana, em mãos republicanas, garante aos Farroupilhas acesso ao mar.
Mas... a história da grande heroína farroupilha, Ana Maria de Jesus Ribeiro, começou bem antes daquela noite de tempestade, sendo ouvida ainda hoje, quando a Brisa dos Pampas desperta fantasmas farroupilhas.
O Mar A Viu Chorar
Anita Garibaldi , Heroína da Revolução Farroupilha
Encantadora menina, descendente de imigrantes açorianos, sua fibra tornava leve o peso da lida. Durante o dia tratava porcos, ajudava nos afazeres domésticos, cuidava dos irmãos menores.
À noite, a Brisa dos Pampas a convidava a passear.
Em mornas madrugadas, a menina andava descalça na praia, brincava nas ondas do mar. Só ele a viu chorando, por-que o amargo das suas lágrimas era mais doce que as águas do oceano.
Sobre ele, derramou seus sonhos, falando coisas que ele parecia não escutar. Ao amanhecer, retornava a casa e adorme-cia por poucas horas, logo despertando em sua rotina. Sentindo-se sozinha, incompreendida por familiares conformados com o que a vida lhes oferecia, ela, no seio daquela família, sabia-se nada além de uma boca a mais para o pai sustentar. Ela não queria ser um peso para ele, um estorvo entre os dez filhos. Não se calava diante de injustiças, nem engolia desaforos ou cedia a caprichos para agradar patrões, tentando arrancar-lhes gracejos.
Seria difícil manter-se em algum trabalho, servindo mesas em tabernas, limpando casa de sinhazinha, ou atrás do balcão de alguma bodega. Pensou que o sapateiro a faria feliz, aceitou de bom grado o casamento arranjado. Foi fácil iludir a menina, que há pouco ainda brincava com boneca feita de sabugo de milho.
Ganhou do padrinho de casamento uma máquina de costura. No dia da cerimônia, o sol invadiu o quarto, repousando os raios em seu vestido de noiva estendido sobre a cama. Ela nunca vestiu nada tão lindo! O sorriso de promessa, crendo em dias melhores brilhava mais que os raios de sol irradiando energia. O astro emprestava a ela o lume. Adentrou na igreja abrilhantando a passagem de Ana, de braços dados com o pai, entre-gando-a ao feitor. Ela disse sim à própria sina. Logo depois da festa, o vestido foi arrancado, despindo-a das fantasias de menina. Sobre o corpo delicado, cavalgava embriagado brutamontes, e ela, corajosa, o derrubou. Mas foi impossível colocar-lhe cabresto, algumas vezes ela apanhou.
Para se defender, aprendeu a empunhar arma, mas não que-ria atirar. Então o feitor ela embriagava para fugir de seu galope e correr para o mar, confessando somente a ele seus segredos, pedindo que a levasse para longe. Ainda muito jovem deixou de ser menina, a vida a transformou em valente heroína. O mar bradava um nome diferente do seu: Anita! Anita! Um dia ela entendeu. Os Farroupilhas invadiram a cidade, o corsário Garibaldi a conheceu, encantando-se com tamanha meninice em valentes atitudes de mulher.
Destemido e aventureiro, Garibaldi imediatamente reconheceu nela outro soldado, mas o olhar apaixonado da guerreira o arrebatou.
O coração do corsário, Bento Gonçalves apunhalou, negando-lhe a mão de Manuela em noivado. Anita não se importou, curando o despedaçado coração do soldado, afinal, guerras deixam mortos e feridos. Ao lado de Garibaldi, ela proclamou a própria independência, abraçando a causa Farroupilha, seguindo-o como um soldado, tomando as rédeas da própria vida. O destino dos dois foi entrelaçado com delicados fios de cabelo, tramando a longa trança da guerreira e o lenço vermelho do corsário. O mar levou para a Itália Anita Garibaldi, filha mais ilustre de Laguna, junto de seu corsário Farrapo, com quem viveu até os últimos dias de sua vida, sendo eternamente lembrada por seus feitos de heroína, com a graça brejeira de menina.
Em visita a cidades de colonização açoriana, sinto-me atraída por antigas construções, cenários da historia inspiram contos da Brisa do Sul.
Cavalo Baio - Marcus Viana
Contos Farroupilhas,
Por onde passa... A brisa dos pampas levanta a poeira encobrindo historias. Desperta adormecidos fantasmas, trazendo-os ao aqui e agora revivendo emoções expressas no tempo.
Texto da obra Janelas para o Mar Contos da Brisa do Sul
Denize Domingos Entre o céu e a terra, havia um anjo!
Tão delicada criatura, na alma e na palma da mão, aspereza não havia. Nunca precisou cuidar de porcos, limpar chiqueiros, dar milho às galinhas, nem qualquer lida que não fosse apropriada a uma prendada donzela. Enquanto bordava, alinhavava pensamentos, sonhando com branco cavalo, montado por seu príncipe encantado. Alheia à guerra que os homens faziam, os motivos ela desconhecia. Sobrinha de Bento Gonçalves, o ge-neral a protegia da realidade, desrespeitosos cortejos e perigos que uma donzela corria.
112
Nas conversas entre mocinhas, sobre sangrentas batalhas não se ouvia, falavam de belos soldados e das flores que eles traziam.
Casa cercada por alambrado, a donzela fugia além dos jardins, colhia amoras e morangos silvestres, à sombra das asas de um serafim.
Em tarde ensolarada, Rosário foi além do horizonte. Num descuido do anjo, um soldado a encantou, usava lenço branco denunciando-lhe um imperialista. Mas ela não reparou! Adormecia para sonhar com seu Estevão. Acordada o encontrava, corajoso soldado, por Rosário tudo enfrentava. Mas ela, a um Farroupilha foi prometida, matando o seu rival. Rosário, inconformada, criou um mundo só seu. A um convento foi levada. Dizem que a moça enlouqueceu. Em vida, o amor de Rosário e Estevão venceu todas as dificuldades, contrariando proibições da opressora família revolucionária. A morte não os separou. Rosário enclausurada, por breves instantes era agraciada por seu amor. Estevão ultrapassou o umbral dos mortos, fazendo companhia a sua amada. Sempre esperando viver ao lado dele pela eternidade, um dia a espera teve fim! Dizem que quando a jovem foi encontrada morta, nunca antes observou-se em seu rosto expressão tão serena, parecendo um querubim.
Adriana Mezzadri - Do Amor e da Guerra
Charqueada São João / Pelotas RS
Em estilo
colonial, a antiga Charqueada de Inácio
Rodrigues Barcellos, foi construída em
1826. Segundo inventários, em 1863,
contava com 30 escravos. Na charqueada Santa Rita se instalou a primeira
fábrica de enlatados de carne da cidade.
Placa de cerâmica doada a charqueada São Pedro , Pelotas RS,.Peça doada pelo Projeto Vestígios Açorianos, aprovado pelo FAC, fundo de arte e cultura do Rio Grande do Sul, abrangendo quatorze cidades de colonização açoriana.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Contos farrouplhgilhas Bento Gonçalves pede Perdão a Manuela
Em Guaíba, visitando a casa de Gomes Jardim, berço da revolução farroupilha e leito de morte do Presidente da republica Rio Grandense; Bento Gonçalves, tocou-me a brisa dos pampas, sussurrando em meus ouvidos historias de fantasmas farroupilhas.
Casa de Gomes Jardim, Guaíba-m foto; Gerson P Jung
Pedras Brancas; 26 de julho de 1847
Manuela Amália Ferreira
Adorada sobrinha;teu doce semblante enternecido pela
abdicação de aspirações de tão romântica jovem advertida a abandonar seus sonhos, amarguram os últimos dias de minha vida.
Em pedras brancas, sentindo-me invalido aqui nesta cama, sob o mesmo teto onde definimos
rumos da guerra, considerando a casa de Gomes Jardim, berço da revolução
farroupilha, será este, meu leito de morte.
Atormentado por
fantasmas do passado, ouço tristes
murmúrios trazidos com a brisa dos pampas, varrendo campinas por onde cavalguei tantas vezes,
agradecendo a Deus por ser um homem livre.
Esta liberdade minha querida, juro ter desejado aos meus semelhantes, sendo eles ricos ou
pobres, brancos, negros , mestiços ou pardos. Mas aprisionei-a
em tua melancolia,Manuela, mantendo-a
sob julgo da minha vontade,supondo saber o que era melhor para ti.
Afastei-a de um amor, supondo-o inadequado, sem escutar tua vontade. Neguei tua mão a Garibaldi, declarando-se
também apaixonado por ti. Revelou-me seus sentimentos ao tentar firmar
compromisso de noivado. Tramei teu destino com cordas de aço, com a astúcia
de um estrategista de guerra, afastando-a de
Garibaldi. Ardilosamente o
convenci a desistir do intento. Argumentei já estares prometida a teu primo Joaquim. Sempre fiz gosto
nesta união ! Mantendo-te fiel a um noivado secreto, rechaçastes qualquer outro
pretendente.
Tua tia Ana, teme por tua sanidade, me escreve falando da melancolia encobrindo o brilho que
havia em teus olhos. Nenhuma mulher deve esperar por um homem que nunca lutou por ela doce Manoela. O valor de um soldado se mede pela bravura em batalhas, mas o caráter, avalia-se pela conduta em tempos de guerra ou paz. Manoela, rogo-lhe; não
permita-me adormecer pela eternidade sem antes despertar-te
para a vida. Fostes amada por teus familiares, primeira filha de um pai zeloso, sobrinha mais estimada
do
Presidente da republica, entregue ao império. Secretamente, admiro-a mais
que as outras sobrinhas, por seres a mais altiva e inteligente. Tu jamais aceitarias
seguir Garibaldi sem que ele te propusesse isso, ou prometesse algo. E tu o farias cumprir as promessas. Serias capaz de
abandonar-lo se percebesse que foram unidos pelas circunstancias. Tens o brio e a
nobreza de rainha, com sangue republicano! Anita não tem a mesma índole. Tu, minha querida, se aguardas por um amor, tens ciência que és ainda amada; contudo, respeitas a escolha dele. Ela, com toda sua bravura, tendo prendido Garibaldi com laços sólidos formando uma família, mesmo viúva,não lhe foi oferecido matrimonio. Sendo incapaz de enfrentar
a ameaça que tu representa, ela nunca disse a Garibaldi que viesse dar-te a
explicação desejada,e sustentando teu olhar declarar estar apaixonado por outra mulher. Dos teus rubros lábios, jamais ele escutaria palavras persuasivas, suplicas ou revolta, apenas tu ouvirias
dele o que outras pessoas não te
fizeram crer. Então, engolirias teu pranto, murmurando um adeus tristonho, partindo de cabeça erguida retomando tua vida, ou o seguiria se assim os dois desejassem. Saibas Manuela, que a historia
fará de Anita uma heroína, de mim, um tio opressor, Rossetti; confidente traiçoeiro, e Garibaldi, um corsário a deriva dos bons ventos ; Mas
teu diário , fará com que tempos vividos durante uma sangrenta e longa guera, sejam conhecidos através
da tua poesia. Os fantasmas farroupilhas,
mortos pelo fio da espada dos imperialistas, destruindo nossos sonhos de igualdade; desejam tua liberdade minha adorada. Mas esta conquista só depende de ti. Assim, também
me libertaras do remorso sabendo-te prisioneira de uma espera infinda. Não foste abandonada, obstinada donzela, ficastes a espera de um soldado com coração e orgulho ferido , abarcado por outra batalha, sem teres lutado para recuperá-lo.
Pois o desejava fiel a tua causa.
Se te serve de consolo minha altiva sobrinha; sei a origem da coragem de Anita; Veio da solidão maior que a tua, tendo no amor de Garibaldi a
mão estendida. Veio, do medo afirmado numa das poucas frases celebres que ela citava:
“ Maldita pobreza que me liberta “
A coragem de Anita, não é inferior ou maior que a tua, vem de outra estirpe. Vem da força de uma mulher que conheceu as agruras da vida e nunca deixou de sonhar, segurou firme a mão estendida de um amor, lutou ao lado dele, defendendo sua própria causa e a dele. Ambos unidos, lutaram por liberdade da republica Rio-grandense, rincão de todos os chimangos e maragatos. Com carinho; do teu tio que muito te estima; Bento Gonçalves
Denize Domingos
Quarto onde faleceu Bento Gonçalves , em Guaíba na casa de Gomes Jardim
ADRIANA MEZZADRI - SETE VIDAS
Foto: Denize Domingos; charqueadas Pelotas As Margens do Arroio Pelotas... A presença de Manuela
Estando as margens do
arroio Pelotas, pressenti tua presença, Manuela. Quisera chegar antes, ter sido a brisa dos pampas
encrespando aquelas águas, onde charqueadas se formaram, tingindo-as com sangue de gados, ferimentos de soldados e lagrimas de mães, mulheres e donzelas.
Num
sopro elucidante penetraria pelas
frestas da tua janela, Manuela, enxugaria teu pranto. Trazendo-te o
agreste perfume das flores do campo, ouviria teu suspiro e meus sussurros
te fariam entender; Quem nunca enfeitou teus cabelos colocando neles uma flor,
nunca iluminou a escuridão das tuas noites ofertando-lhe uma estrela, não
arrancou sorrisos dos lábios silenciados por alguém que ouvira palavras de amor; Permitiu que ficasses aflita
em teu quarto enquanto na sala, decidiam teu destino; não merece um segundo do
teu tempo. Agora, tens a eternidade para
narrar tuas historias, e eu, minha querida, ofereço aos fantasmas farroupilhas minha atenção para ouvi-los.
Com respeito a luta pela independência da República Rio- Grandense
e tudo que representou; num tempo em que
homens das palavras, intelectuais e idealistas
precisaram empunhar armas, defendendo causas; faço uso da instantânea comunicação
para dar voz aos fantasmas farroupilha.
Brisa
dos pampas
“campeando um rastro de gloria “
Fotografia; Gerson Paulo Jung
cemitério municipal de Rio Pardo ,
Hino rio-grandense Direitos autorais;
Todos os textos literários publicados neste blog, serão revisados e futuramente publicados em livro de contos do sul. Registrados,os direitos autorais da autora garantem a exclusividade. Autorizo compartilhamentos, citações e pesquisa; citando a fonte. Algumas imagens utilizadas, são retiradas da internet, no caso, não tenho nenhum direito sobre estas.
Em Rio Pardo, cidade onde encontra-se muitos
prédios em estilo luzo açoriano, a revolução farroupilha tem uma das suas
maiores vitorias num conflito envolvendo cerca de 5 mil homens.
Estas histórias são confidenciadas através
de mudos diálogos entre mim e paredes , aflorando sensações. Antigas construções me atraem até elas. Em seus interiores tento ficar só, tocar as paredes, sentindo-me parte delas. Na medida em que me distancio, elas suplicam por minha companhia e aguardam ansiosas
meu regresso. È o mesmo que afastar-me da minha própria casa.
De volta ao lar,
percebo-me hóspede, pois meu lugar é onde a brisa dos pampas me leva. Amparada pelo livre conduto, na condição de
artista, permito-me delirar. Diante do computador, ferramenta de trabalho, a imaginação parece guiada, Impulsiona, digito palavras fluidas
naturalmente, como água cristalina jorrando de fonte inesgotável.
Escuto sussurros da brisa lá fora, varrendo pampas distantes de mim, trazendo consigo aflitos fantasmas , desejando contarem segredos. Abro a janela, deixo-os entrar, apago as
luzes, ascendo uma vela, a conexão traz
o passado de volta.
Rio Pardo; Paredes que murmuram
Naquela noite,30 de
abril em 1838, a cidade imperialista seria atacada; o confronto
entre maragatos e chimangos foi inevitável. Ela, trancada em seu
aposento, sufocava o pranto e rezava; sabia que o pai, bravo comandante
do exército elegantemente fardado, não hesitaria em manchar
os lenços brancos com sangue dos revolucionários farroupilhas. Constança
jamais confessou seu amor por aquele jovem soldado, vestindo farda
puída, bordada de ideais. Inadvertidamente ele sustentou o tímido olhar
da donzela, arrancando-lhe discreto sorriso quando ousou ofertar-lhe
um botão de seu dolmã. A beleza do gesto e ausência de
grandes emoções de uma vida regrada, contrariando anseios do
romântico coração , fez a menina sonhar. Foram noites e
noites em claro, embaladas pormurmúrios dabrisados pampas, inspirando proibidos
desejos, despertando sentinelas dos pesadelos de guerra. A janela do aposento,
a noite, sempre trancada, compassiva oferecia a menina variáveis
espetáculos vislumbrados através de restrita fresta. A Lua
inspirava ardentes fantasias, fazendo a donzela desejar ser aquela fenda,
penetrada por aragem da noite. Constança
precisava de um rosto pra dar veracidade as suas
fantasias, escolhendo aquele rapaz. Crendo que ele
libertaria escravos de cativeiros, arrancaria donzelas de
seus aposentos, poria em práticas idéias escritas em livros e
de um rincão negligenciado pelo império, tornaria republica independente,
ela apaixonou-se pelo herói criado em sua imaginação. A brisa
trazia até Constança os ruídos da guerra. A menina que ocupava os dias
bordando, a noite, desejava ser mulher. Para ela, pouco importavam os
motivos daguerra,queria a paz trançada entre os
lenços, comemorada em jantar de noivado. No campo de batalha, algumas
léguas da cidade, o jovem maragato lutava pela vida, tentando
desviar-se das lanças e tiros de fuzis. O jovem soldado nem lembrava de
Constança, tão pouco sabia o nome da jovem que sonhava com ele. Mas o disparo
de um tiro certeiro, trouxe-a como um anjo para junto dele.
Tombado de seu cavalo, ele sente o ferimento. Na tentativa de estancar o
sangue, põe a mão no peito, sentindo a falta do botão. Surge em sua mente o
rosto de Constança iluminado por doce sorriso, sendo esta a ultima
lembrança do soldado, antes de ser socorrido por Bento Gonçalves . A
batalha enfrentada por cerca de cinco mil homens, foi uma das maiores
vitorias dos rebeldes gaúchos. A noite, cinco mil mulheres esperaram por
eles. Os que regressaram enfrentavam batalhas mais amenas, nos
braços de suas amadas, entre paredes que murmuram histórias de muitas vidas.
Denize Domingos
Rio Pardo
Esta residência em ruínas, testemunha uma bela construção do período colonial, encontra-se interditada, em estado avançado de decomposição, amparada por escoras oferecendo risco de desabamento. Numa de suas vigas, uma fenda na extensão de quase todo o segundo piso, com aproximadamente 9 cm, de largura, numa envergadura bem maior, evidencia a inclinação da parede lateral; que considerando minha imprudência, manteve-se firme diante de mim, enquanto seus fantasmas contavam-me historias.
vídeo; Origens / Guerra dos Farrapos
Durante o andamento do projeto Vestígios Açorianos, visitando diversas cidades gauchas, surgiram outros interesses; foram estabelecidos elos entre lugares e pessoas. Com alegria, continuarei ligada a estas cidades, contando historias sobre elas, Agradeço especialmente ao meu marido Gerson Paulo Jung, companheiro de vida e viagens, tornando meu trabalho ainda mais agradável. De forma carinhosa e criativa, registro aqui minhas impressões destas querencias distantes.