Contos Farroupilhas
A literatura reinventando historias do Rio Grande do Sul.
Texto publicado na obra literária Janelas para o Mar
contos da Brisa do Sul/ Denize Domingos
Anita Garibaldi; só o mar a viu chorar
Enfurecidas pela tempestade, as águas ligadas por rios, la-goas e canais, engoliram o lanchão Farroupilha, conferindo a fama de má sorte ao general Bento Gonçalves. Alguns afoga-dos foram tragados para o fundo das águas junto com o barco, não havendo tempo para lamúrias. Navegando as mesmas águas, o Seival traz por mar os soldados Farrapos e seu famigerado corsário Garibaldi, invadindo a cidade, surpreendendo imperiais.
Foi tomada a cidade de Laguna, em 22 de julho de 1839. Poucos dias depois, em 29 de julho do mesmo ano, foi proclamada a República Juliana. Não havendo contingente territorial com a República Rio-Grandense, a República Juliana, em mãos republicanas, garante aos Farroupilhas acesso ao mar.
Mas... a história da grande heroína farroupilha, Ana Maria de Jesus Ribeiro, começou bem antes daquela noite de tempestade, sendo ouvida ainda hoje, quando a Brisa dos Pampas desperta fantasmas farroupilhas.

O Mar A Viu Chorar
Anita Garibaldi , Heroína da Revolução Farroupilha
Encantadora menina, descendente de imigrantes açorianos, sua fibra tornava leve o peso da lida. Durante o dia tratava porcos, ajudava nos afazeres domésticos, cuidava dos irmãos menores.
À noite, a Brisa dos Pampas a convidava a passear.
Em mornas madrugadas, a menina andava descalça na praia, brincava nas ondas do mar. Só ele a viu chorando, por-que o amargo das suas lágrimas era mais doce que as águas do oceano.
Sobre ele, derramou seus sonhos, falando coisas que ele parecia não escutar. Ao amanhecer, retornava a casa e adorme-cia por poucas horas, logo despertando em sua rotina. Sentindo-se sozinha, incompreendida por familiares conformados com o que a vida lhes oferecia, ela, no seio daquela família, sabia-se nada além de uma boca a mais para o pai sustentar. Ela não queria ser um peso para ele, um estorvo entre os dez filhos. Não se calava diante de injustiças, nem engolia desaforos ou cedia a caprichos para agradar patrões, tentando arrancar-lhes gracejos.
Seria difícil manter-se em algum trabalho, servindo mesas em tabernas, limpando casa de sinhazinha, ou atrás do balcão de alguma bodega. Pensou que o sapateiro a faria feliz, aceitou de bom grado o casamento arranjado. Foi fácil iludir a menina, que há pouco ainda brincava com boneca feita de sabugo de milho.
Ganhou do padrinho de casamento uma máquina de costura. No dia da cerimônia, o sol invadiu o quarto, repousando os raios em seu vestido de noiva estendido sobre a cama. Ela nunca vestiu nada tão lindo! O sorriso de promessa, crendo em dias melhores brilhava mais que os raios de sol irradiando energia. O astro emprestava a ela o lume. Adentrou na igreja abrilhantando a passagem de Ana, de braços dados com o pai, entre-gando-a ao feitor. Ela disse sim à própria sina. Logo depois da festa, o vestido foi arrancado, despindo-a das fantasias de menina. Sobre o corpo delicado, cavalgava embriagado brutamontes, e ela, corajosa, o derrubou. Mas foi impossível colocar-lhe cabresto, algumas vezes ela apanhou.
Para se defender, aprendeu a empunhar arma, mas não que-ria atirar. Então o feitor ela embriagava para fugir de seu galope e correr para o mar, confessando somente a ele seus segredos, pedindo que a levasse para longe. Ainda muito jovem deixou de ser menina, a vida a transformou em valente heroína. O mar bradava um nome diferente do seu: Anita! Anita! Um dia ela entendeu. Os Farroupilhas invadiram a cidade, o corsário Garibaldi a conheceu, encantando-se com tamanha meninice em valentes atitudes de mulher.
Destemido e aventureiro, Garibaldi imediatamente reconheceu nela outro soldado, mas o olhar apaixonado da guerreira o arrebatou.
O coração do corsário, Bento Gonçalves apunhalou, negando-lhe a mão de Manuela em noivado. Anita não se importou, curando o despedaçado coração do soldado, afinal, guerras deixam mortos e feridos. Ao lado de Garibaldi, ela proclamou a própria independência, abraçando a causa Farroupilha, seguindo-o como um soldado, tomando as rédeas da própria vida. O destino dos dois foi entrelaçado com delicados fios de cabelo, tramando a longa trança da guerreira e o lenço vermelho do corsário. O mar levou para a Itália Anita Garibaldi, filha mais ilustre de Laguna, junto de seu corsário Farrapo, com quem viveu até os últimos dias de sua vida, sendo eternamente lembrada por seus feitos de heroína, com a graça brejeira de menina.
Em visita a cidades de colonização açoriana, sinto-me atraída por antigas construções, cenários da historia inspiram contos da Brisa do Sul.
Cavalo Baio - Marcus Viana

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