quinta-feira, 15 de dezembro de 2016




Projeto vestígios Açorianos 


Valorização da cultura açoriana, retratada em placas de cerâmica similares aos antigos azulejos portugueses. 
Diferentes estilos arquitetônicos, marcam a contribuição de outros povos que vieram colonizar o Rio Grande Do Sul.  Estampando azulejos em estilo português, a integração entre estas  culturas são retratadas através da eclética arquitetura. Demonstrando a marcante influencia da arte açoriana, modernas construções e cartões postais das cidades, são transformados em antigos azulejos coloniais,  estabelecendo  elo entre o passado e presente. As placas são também um  presente as cidades integrantes do projeto Vestígios Açorianos,  que procurou encontrar mesmo em cidades colonizadas por outros povos, alguns vestígios deixados por imigrantes que tenham passado ou se estabelecido nestas cidades. 










Agradeço aos  participantes do projeto, foi  uma grande alegria conhecer tantas pessoas e cidades, estabelecendo vinco com elas.
Por algumas, me apaixonei;  Piratini, Rio Pardo, Canguçu, cidades históricas, inspiraram um novo trabalho literário. Das  quatorze cidades contempladas, somente duas não demonstraram interesse em receber as placas. portanto, as peças referentes as cidades de Rio Grande e Jaguarão, serão doadas ao Museu Açoriano Rio Grandense, que fará uso apropriado. Concluir um trabalho tão desafiador, tendo dificuldade em algumas cidades em  conseguir autorizações das instalação das peças, é sempre um alivio. Mas é também uma sensação boa, de dever cumprido. Quando retornei as cidades, algumas placas haviam sido depredas, ficara  a lembrança e a poesia das cartas de imigrantes, publicadas aqui. Aos interessados em saber  por que alguns  camponeses  deixaram  famílias nas ilha dos açores e  embarcaram em contingentes navios; desvendem este blog. 

Denize Domingos














terça-feira, 29 de novembro de 2016


          CONTOS DA  BRISA DO SUL 

              Em memória aos lanceiros farroupilhas 
          




Promessa de Liberdade   

O Massacre dos Porongos
Em novembro de 1844, a fonte milagrosa de Cacimbinhas tornou rubras de vergonha suas águas. A traição manchou a história vertendo lágrimas de sangue nos olhos da imagem da santa Nossa Senhora da Luz. Apagaram-se as estrelas do pampa, alguns generais ficaram cegos de ambição. Época dos jasmins desabrocharem nos canteiros das casas grandes, mas não nascera livre em todo o pago a branca flor. Brisa, a cigana dos pampas colheu nas coxilhas braçadas de flores do malmequer. Depositou-as sobre cerca de 800 corpos estendidos no chão e soprou sobre eles a poeira vinda do continente africano. Devolveu aos cidadãos descendentes da África lembranças da pátria onde seus ancestrais eram livres. As mãos do mar não alcançam o pampa gaúcho, os escravos repousam em terras onde foram escravizados, sepultados em vala comum. Sem cruz nem identificação, jaz o corpo de oitocentos lanceiros. Enfim, conquistaram a paz!








                                       Lanceiros Negros 




                                            O Despertar da Sentinela


Subitamente foi ceifada a vida do escravo sonhador, sem chance de defesa. A Brisa do Sul escutou o agonizante suspiro do homem negro, morto ao lado de outros lanceiros. Ele tenta-va se reerguer e continuar lutando com outros soldados, em troca da alforria. A cigana toca o rosto do guerreiro, tentando libertar a alma cativa do escravo. Quando foi armado pelo Exército Farroupilha, retiraram dos seus pulsos as algemas. Agora, continua preso a um corpo sem vida, procurando sua lança. Aquela foi a última batalha da Revolução, nos pagos gaúchos não há mais soldados lutando, só se escuta lamento! Nenhum Farroupilha, vivo ou morto, comemorou o fim da guerra! Em farrapos, fantasmas dos soldados mortos na revolução galopam seus cavalos, cavalgando livres nos pagos sem fronteiras, seguindo o Negrinho do Pastoreio.
Passaram meses depois daquela madrugada de primavera, o guerreiro sonhador é o único lanceiro que continua cativo. Crendo na promessa feita aos escravos, não escuta a Brisa dos Pampas sussurrando em seus ouvidos.
— Desperta do sonho de liberdade, sentinela Farroupilha, traiçoeiramente tombada. Morreste em emboscada, quando tua lança longe de ti repousava. Lanceiro Farrapo, teu suor não foi o bastante para enriquecer poderosos senhores, pagando altos impostos por fardos de charque que carregavas em tuas costas. Nos saladeiros, trabalhastes carneando gado, salgando a carne; na senzala, amargava tua sina.
Desperta do sonho, transformado em pesadelo, verás a pa-ga que recebestes por ter acreditado em ideais de generais.
A reforma que almejavam, era política e tributária. Queri-am livrar o Rio Grande das altas taxas de impostos cobradas pelo Império. Donos de escravos não são abolicionistas.
Desperta lanceiro, enfim, és homem livre!
Desfigurado, teu cadáver banhado em poça de sangue já descansa em cova rasa, sob solo Farroupilha. Após dez anos de revolução, a República foi devolvida ao Império. Sentinela Rio-grandense, desvenda os mistérios daquela vergonhosa noi-te no Cerro de Porongos.
A paz já foi lavrada em documento, formalizada entre Imperador e general republicano, tornando-os aliados.
Tecida em vantajosa trama, o tratado do Poncho Verde se-lou a paz entre senhores da guerra.
Uma negra sombra encobrindo verdades e calúnias pairou sobre o Rio Grande. Lanceiro, foi assinado com negro borrão de tinta o acordo do Ponche Verde manchando a história, de-sonrando a cor da tua pele e o lema da revolução.
Os cidadãos escravizados lutaram por liberdade, diferente daquela que Bento Gonçalves pregava. Promessas de senhores feitas aos negros de nada serviram. Livres, escravos não teriam valia aos senhores a quem serviam.
A promessa de alforriar os negros que lutaram em frente às tropas republicanas, seria um impedimento para firmarem o tratado de paz.
Mortos, os negros soldados bem treinados, exímios cava-leiros, não representariam ameaça, nem cobrariam seus direi-tos. O empasse foi resolvido na madrugada de 14 de novem-bro, em 1844. Davi Canabarro retirou dos lanceiros suas armas. Surpreendidos em emboscada, foram dizimados por tropas im-periais, sob comando de Pedro Abreu, o Moringue. O Barão de Caxias o havia instruído sobre formas de pacificar guerras. Na mesma madrugada, enquanto ocorria o massacre, Canabarro descansava na tenda, aos braços da amante Papagaia.
Meses após a última batalha Farroupilha, enfrentada sem resistência, em dezembro de 1845, o tratado de unificação foi assinado.
A paz do Poncho Verde se estendeu sobre coxilhas man-chadas com sangue africano. Num canto da consciência, crimes de guerra são sepultados e foi prescrito o julgamento de Cana-barro, jurando inocência.
Pesando sobre seu peito, general Bento Gonçalves usou to-das as medalhas condecoradas por Dom Pedro I, apresentando-se ao regente do Império, Dom Pedro II. Curvando-se diante do Imperador de 20 anos de idade, o herói Farroupilha, Bento Gonçalves, ofereceu-lhe a espada, entregando-lhe também a República Rio-grandense. A província havia sido separada do resto do Império do Brasil, sendo proclamada nação indepen-dente pela voz do general Antônio de Sousa Neto, após grande vitória de suas tropas na Batalha do Seival. Posteriormente, Bento Gonçalves recebe a notícia de ter sido aclamado Presi-dente. Das mesmas mãos que recebeu a República, escapa dez anos depois.
Silenciaram-se os gritos do general à frente das tropas or-denando: Avante, Farroupilhas, por uma República livre!
Bento Gonçalves, antes da morte, deixa inventário com cinquenta e três escravos aos herdeiros.
Murmura triste a Brisa, percorrendo campos de batalha. Em ermas madrugas, ela ouve protestos dos Farroupilhas que morreram honrando o lema re-publicano.
Verdades e calúnias pairam sobre o Rio Grande. O vento derruba frágeis paredes e alambrados, desmorona taperas, sólidas construções resistem, desvendando mistérios.



















sexta-feira, 18 de novembro de 2016



Contos Farroupilhas 
A literatura reinventando  historias  do Rio Grande do Sul.
Texto publicado na obra literária Janelas para o Mar
contos da Brisa do Sul/ Denize Domingos 

Anita Garibaldi; só o mar a viu chorar 

Enfurecidas pela tempestade, as águas ligadas por rios, la-goas e canais, engoliram o lanchão Farroupilha, conferindo a fama de má sorte ao general Bento Gonçalves. Alguns afoga-dos foram tragados para o fundo das águas junto com o barco, não havendo tempo para lamúrias. Navegando as mesmas águas, o Seival traz por mar os soldados Farrapos e seu famigerado corsário Garibaldi, invadindo a cidade, surpreendendo imperiais.

Foi tomada a cidade de Laguna, em 22 de julho de 1839. Poucos dias depois, em 29 de julho do mesmo ano, foi proclamada a República Juliana. Não havendo contingente territorial com a República Rio-Grandense, a República Juliana, em mãos republicanas, garante aos Farroupilhas acesso ao mar.




Mas... a história da grande heroína farroupilha,  Ana Maria de Jesus Ribeiro, começou  bem antes daquela noite de tempestade, sendo ouvida ainda hoje,  quando a Brisa dos Pampas desperta  fantasmas farroupilhas. 








O Mar A Viu Chorar
Anita Garibaldi , Heroína da Revolução Farroupilha

Encantadora menina, descendente de imigrantes açorianos, sua fibra tornava leve o peso da lida. Durante o dia tratava porcos, ajudava nos afazeres domésticos, cuidava dos irmãos menores. 
À noite, a Brisa dos Pampas a convidava a passear.
Em mornas madrugadas, a menina andava descalça na praia, brincava nas ondas do mar. Só ele a viu chorando, por-que o amargo das suas lágrimas era mais doce que as águas do oceano.
Sobre ele, derramou seus sonhos, falando coisas que ele parecia não escutar. Ao amanhecer, retornava a casa e adorme-cia por poucas horas, logo despertando em sua rotina. Sentindo-se sozinha, incompreendida por familiares conformados com o que a vida lhes oferecia, ela, no seio daquela família, sabia-se nada além de uma boca a mais para o pai sustentar. Ela não queria ser um peso para ele, um estorvo entre os dez filhos. Não se calava diante de injustiças, nem engolia desaforos ou cedia a caprichos para agradar patrões, tentando arrancar-lhes gracejos.
Seria difícil manter-se em algum trabalho, servindo mesas em tabernas, limpando casa de sinhazinha, ou atrás do balcão de alguma bodega. Pensou que o sapateiro a faria feliz, aceitou de bom grado o casamento arranjado. Foi fácil iludir a menina, que há pouco ainda brincava com boneca feita de sabugo de milho.
Ganhou do padrinho de casamento uma máquina de costura. No dia da cerimônia, o sol invadiu o quarto, repousando os raios em seu vestido de noiva estendido sobre a cama. Ela nunca vestiu nada tão lindo! O sorriso de promessa, crendo em dias melhores brilhava mais que os raios de sol irradiando energia. O astro emprestava a ela o lume. Adentrou na igreja abrilhantando a passagem de Ana, de braços dados com o pai, entre-gando-a ao feitor. Ela disse sim à própria sina. Logo depois da festa, o vestido foi arrancado, despindo-a das fantasias de menina. Sobre o corpo delicado, cavalgava embriagado brutamontes, e ela, corajosa, o derrubou. Mas foi impossível colocar-lhe cabresto, algumas vezes ela apanhou.
Para se defender, aprendeu a empunhar arma, mas não que-ria atirar. Então o feitor ela embriagava para fugir de seu galope e correr para o mar, confessando somente a ele seus segredos, pedindo que a levasse para longe. Ainda muito jovem deixou de ser menina, a vida a transformou em valente heroína. O mar bradava um nome diferente do seu: Anita! Anita! Um dia ela entendeu. Os Farroupilhas invadiram a cidade, o corsário Garibaldi a conheceu, encantando-se com tamanha meninice em valentes atitudes de mulher.
Destemido e aventureiro, Garibaldi imediatamente reconheceu nela outro soldado, mas o olhar apaixonado da guerreira o arrebatou.
O coração do corsário, Bento Gonçalves apunhalou, negando-lhe a mão de Manuela em noivado. Anita não se importou, curando o despedaçado coração do soldado, afinal, guerras deixam mortos e feridos. Ao lado de Garibaldi, ela proclamou a própria independência, abraçando a causa Farroupilha, seguindo-o como um soldado, tomando as rédeas da própria vida. O destino dos dois foi entrelaçado com delicados fios de cabelo, tramando a longa trança da guerreira e o lenço vermelho do corsário. O mar levou para a Itália Anita Garibaldi, filha mais ilustre de Laguna, junto de seu corsário Farrapo, com quem viveu até os últimos dias de sua vida, sendo eternamente lembrada por seus feitos de heroína, com a graça brejeira de menina.



Em visita a cidades de colonização açoriana, sinto-me atraída por  antigas construções, cenários da  historia inspiram contos da Brisa do Sul.   





Cavalo Baio - Marcus Viana
       










         Contos  Farroupilhas, 

Por onde passa... A brisa dos pampas levanta a  poeira encobrindo historias. Desperta adormecidos fantasmas,  trazendo-os  ao aqui e agora revivendo emoções expressas no tempo.



                    Texto da obra Janelas para o Mar
                         Contos da Brisa do Sul 
                                 
Denize Domingos 

                  Entre o céu e a terra, havia um anjo!  



Tão delicada criatura, na alma e na palma da mão, aspereza não havia. Nunca precisou cuidar de porcos, limpar chiqueiros, dar milho às galinhas, nem qualquer lida que não fosse apropriada a uma prendada donzela. Enquanto bordava, alinhavava pensamentos, sonhando com branco cavalo, montado por seu príncipe encantado. Alheia à guerra que os homens faziam, os motivos ela desconhecia. Sobrinha de Bento Gonçalves, o ge-neral a protegia da realidade, desrespeitosos cortejos e perigos que uma donzela corria.
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Nas conversas entre mocinhas, sobre sangrentas batalhas não se ouvia, falavam de belos soldados e das flores que eles traziam.
Casa cercada por alambrado, a donzela fugia além dos jardins, colhia amoras e morangos silvestres, à sombra das asas de um serafim.


Em tarde ensolarada, Rosário foi além do horizonte. Num descuido do anjo, um soldado a encantou, usava lenço branco denunciando-lhe um imperialista. Mas ela não reparou! Adormecia para sonhar com seu Estevão. Acordada o encontrava, corajoso soldado, por Rosário tudo enfrentava. Mas ela, a um Farroupilha foi prometida, matando o seu rival. Rosário, inconformada, criou um mundo só seu. A um convento foi levada. Dizem que a moça enlouqueceu. Em vida, o amor de Rosário e Estevão venceu todas as dificuldades, contrariando proibições da opressora família revolucionária. A morte não os separou. Rosário enclausurada, por breves instantes era agraciada por seu amor. Estevão ultrapassou o umbral dos mortos, fazendo companhia a sua amada. Sempre esperando viver ao lado dele pela eternidade, um dia a espera teve fim! Dizem que quando a jovem foi encontrada morta, nunca antes observou-se em seu rosto expressão tão serena, parecendo um querubim.






Adriana Mezzadri - Do Amor e da Guerra


                                               Charqueada São João / Pelotas RS 

 

Em estilo colonial,  a antiga Charqueada de Inácio           

 Rodrigues Barcellos, foi  construída em 1826.  Segundo inventários, em 1863, contava com 30 escravos. Na         charqueada Santa Rita se instalou a primeira fábrica de enlatados de carne da cidade.                                              






Placa de cerâmica doada a charqueada São Pedro , Pelotas RS,.Peça doada pelo Projeto Vestígios Açorianos, aprovado pelo FAC, fundo de arte e cultura do Rio Grande do Sul, abrangendo quatorze cidades de colonização açoriana. 















segunda-feira, 14 de novembro de 2016



 Contos farrouplhgilhas  

Bento Gonçalves pede Perdão a Manuela 

 antigas construções luzo açorianas inspirando historias 


Surrealismo fantástico

Em Guaíba, visitando  a casa de Gomes Jardim, berço da revolução farroupilha e leito de morte do Presidente da republica Rio Grandense; Bento Gonçalves,  tocou-me  a  brisa dos  pampas, sussurrando em meus ouvidos historias de  fantasmas farroupilhas.


                                               Casa de Gomes Jardim, Guaíba-m foto; Gerson P Jung

Pedras Brancas; 26 de julho de 1847
 Manuela  Amália Ferreira

Adorada sobrinha;teu doce semblante enternecido  pela abdicação de  aspirações  de tão  romântica jovem advertida a abandonar  seus sonhos, amarguram os  últimos dias de minha vida.  
Em pedras brancas, sentindo-me invalido aqui  nesta cama, sob o mesmo teto onde definimos rumos da guerra, considerando a casa de Gomes Jardim, berço da revolução farroupilha, será este, meu leito de morte.
Atormentado  por fantasmas do passado, ouço  tristes murmúrios  trazidos com a  brisa dos pampas, varrendo  campinas por onde cavalguei tantas vezes, agradecendo a Deus por ser um homem livre.
Esta liberdade minha querida,  juro  ter desejado  aos meus semelhantes, sendo eles ricos ou pobres,  brancos, negros ,  mestiços ou pardos.    Mas  aprisionei-a  em tua melancolia,Manuela, mantendo-a sob julgo da minha vontade,supondo saber o que era melhor para ti.
Afastei-a de um amor, supondo-o inadequado, sem escutar tua vontade. Neguei  tua mão a Garibaldi, declarando-se também apaixonado por ti. Revelou-me   seus sentimentos ao  tentar   firmar  compromisso de noivado. Tramei  teu destino com cordas de aço, com a astúcia de um estrategista de guerra, afastando-a de  Garibaldi. Ardilosamente  o convenci  a desistir do intento.  Argumentei  já   estares  prometida a teu primo Joaquim. Sempre  fiz gosto  nesta  união !  Mantendo-te fiel a um noivado  secreto, rechaçastes qualquer outro pretendente.
 Tua tia Ana, teme por  tua sanidade,  me escreve  falando da melancolia  encobrindo  o brilho que  havia em teus olhos. Nenhuma mulher deve esperar por um homem que nunca  lutou por ela doce Manoela. O valor de  um soldado se mede pela bravura em  batalhas, mas o caráter,  avalia-se   pela conduta  em tempos de guerra ou paz.  Manoela,  rogo-lhe;  não  permita-me adormecer pela eternidade sem antes despertar-te   para a vida. Fostes  amada por teus familiares, primeira  filha de um pai zeloso, sobrinha mais estimada  do  Presidente da republica,  entregue  ao império. Secretamente,    admiro-a     mais que as outras sobrinhas, por seres a mais altiva e inteligente. Tu jamais aceitarias seguir Garibaldi sem que ele  te  propusesse isso,  ou prometesse algo. E tu o  farias cumprir as promessas. Serias capaz de abandonar-lo se  percebesse  que foram unidos pelas circunstancias. Tens o brio e a nobreza de rainha, com sangue republicano!  Anita não  tem a mesma índole.  Tu, minha querida, se aguardas por um amor, tens ciência  que és ainda  amada; contudo, respeitas   a escolha dele.  Ela, com toda sua bravura,   tendo  prendido  Garibaldi com laços sólidos formando  uma família, mesmo viúva,não lhe foi oferecido   matrimonio. Sendo  incapaz  de enfrentar a ameaça que tu representa, ela nunca  disse  a Garibaldi    que viesse  dar-te a  explicação  desejada,e sustentando teu  olhar declarar estar   apaixonado  por outra mulher. Dos teus rubros  lábios,  jamais ele escutaria   palavras persuasivas, suplicas ou revolta, apenas tu  ouvirias  dele  o que outras pessoas  não  te fizeram  crer. Então,  engolirias teu  pranto,  murmurando um adeus tristonho, partindo de cabeça erguida retomando tua vida, ou  o seguiria se assim os dois desejassem. Saibas Manuela,  que a historia  fará de Anita uma heroína, de mim, um tio opressor, Rossetti; confidente traiçoeiro, e Garibaldi, um corsário a deriva dos bons ventos ; Mas  teu diário , fará  com que tempos vividos durante uma sangrenta e longa guera, sejam conhecidos através da tua poesia.  Os fantasmas farroupilhas, mortos pelo fio da espada dos imperialistas, destruindo  nossos  sonhos de igualdade; desejam tua  liberdade minha adorada.  Mas esta conquista só depende de ti.  Assim,  também  me libertaras  do remorso   sabendo-te  prisioneira de uma espera infinda.  Não foste abandonada, obstinada donzela,  ficastes a espera de um soldado  com coração e orgulho ferido , abarcado  por outra batalha, sem teres lutado para recuperá-lo.  Pois o desejava fiel a tua causa.
Se te serve de consolo minha altiva sobrinha; sei  a origem da  coragem de Anita;  Veio da solidão  maior que a tua, tendo no amor de Garibaldi a mão estendida. Veio, do medo afirmado numa das poucas frases celebres que ela citava:
 “ Maldita  pobreza que me liberta “
A coragem de Anita, não é inferior ou maior que a tua, vem de outra  estirpe. Vem da força de uma mulher  que conheceu as agruras da vida  e  nunca deixou de sonhar, segurou firme a  mão estendida de um amor,  lutou ao lado dele,  defendendo sua própria causa e a dele. Ambos unidos, lutaram por  liberdade da republica Rio-grandense, rincão de todos os chimangos e maragatos. 

                            Com carinho; do teu tio que muito te estima; 



Bento Gonçalves    


Denize Domingos 
















                       Quarto onde faleceu Bento Gonçalves , em Guaíba na casa de Gomes Jardim   





                                               ADRIANA MEZZADRI - SETE VIDAS








Foto: Denize Domingos; charqueadas Pelotas
As Margens do Arroio Pelotas...  
                A presença  de Manuela 


Estando as margens do arroio Pelotas, pressenti   tua presença, Manuela. Quisera  chegar antes, ter sido a brisa dos pampas encrespando aquelas  águas, onde  charqueadas se formaram,  tingindo-as  com  sangue de gados,  ferimentos de soldados e  lagrimas de mães, mulheres e donzelas. 
Num sopro elucidante  penetraria pelas frestas da tua janela, Manuela, enxugaria teu pranto. Trazendo-te  o agreste perfume das flores do campo, ouviria teu suspiro e  meus sussurros te fariam entender; Quem nunca enfeitou teus cabelos colocando neles uma flor,  nunca iluminou a escuridão das tuas noites ofertando-lhe uma estrela, não arrancou sorrisos dos lábios silenciados por alguém que ouvira palavras de amor; Permitiu que ficasses aflita em teu quarto enquanto na sala, decidiam teu destino; não merece um segundo do teu tempo. Agora, tens a eternidade para narrar tuas historias, e eu, minha querida, ofereço aos fantasmas farroupilhas minha atenção  para ouvi-los.

 

Com respeito a luta   pela independência da República Rio- Grandense e tudo que representou;  num tempo em que homens das palavras, intelectuais e idealistas  precisaram empunhar armas, defendendo causas; faço uso da instantânea comunicação para dar  voz aos fantasmas farroupilha.



Brisa dos pampas 
        
                     “campeando um rastro de gloria “






Fotografia; Gerson Paulo Jung
cemitério municipal de Rio Pardo ,





                                            Hino rio-grandense 



Direitos autorais; 


Todos os textos literários publicados neste blog, serão revisados e futuramente  publicados em livro de contos do sul. Registrados,os direitos autorais da autora garantem a exclusividade. Autorizo compartilhamentos, citações  e pesquisa;  citando a fonte.   Algumas imagens utilizadas, são retiradas da internet, no caso, não tenho nenhum direito sobre estas. 











sábado, 29 de outubro de 2016



VESTÍGIOS AÇORIANOS    
           testemunhando contos 
                          Farroupilha 

Batalha do Barro Vermelho - 30 de abril de 1838
 
Em Rio Pardo, cidade onde encontra-se muitos prédios em estilo luzo açoriano, a revolução farroupilha tem uma das suas maiores vitorias num conflito envolvendo cerca de 5 mil homens. 



Estas histórias  são confidenciadas  através  de mudos diálogos entre mim e paredes , aflorando sensações. Antigas construções me atraem   até elas. Em seus interiores tento ficar só, tocar  as paredes, sentindo-me  parte delas.  Na medida em que me distancio, elas  suplicam por minha companhia e aguardam ansiosas  meu regresso. È o mesmo que afastar-me  da minha própria casa.
De volta   ao lar, percebo-me  hóspede, pois  meu lugar é onde a brisa dos pampas me leva.  Amparada pelo livre conduto, na condição de artista, permito-me  delirar. Diante do  computador, ferramenta de trabalho, a imaginação parece guiada,  Impulsiona, digito  palavras  fluidas  naturalmente, como água cristalina jorrando  de fonte inesgotável.
Escuto  sussurros da brisa lá fora, varrendo  pampas distantes de mim, trazendo consigo  aflitos fantasmas ,  desejando contarem  segredos.  Abro a janela, deixo-os entrar, apago as luzes, ascendo uma vela,  a conexão traz o passado de volta.   








Rio Pardo;  Paredes que murmuram   




Naquela noite,30 de abril em 1838, a  cidade imperialista seria  atacada; o confronto entre maragatos e chimangos foi  inevitável. Ela, trancada em seu aposento, sufocava o pranto e rezava; sabia que o  pai, bravo comandante   do exército elegantemente fardado, não hesitaria em manchar  os lenços brancos com  sangue dos revolucionários farroupilhas.  Constança  jamais confessou seu amor por aquele jovem soldado,  vestindo farda puída, bordada de ideais. Inadvertidamente ele sustentou o tímido  olhar da donzela, arrancando-lhe discreto sorriso quando  ousou  ofertar-lhe um botão de seu  dolmã. A beleza do gesto  e ausência  de  grandes emoções  de uma  vida regrada, contrariando anseios do  romântico coração , fez a menina sonhar.  Foram  noites e noites em claro, embaladas por murmúrios da brisa dos pampas, inspirando proibidos desejos, despertando sentinelas dos pesadelos de guerra. A janela do aposento, a noite, sempre trancada, compassiva  oferecia a menina  variáveis  espetáculos vislumbrados  através de restrita fresta. A Lua inspirava ardentes fantasias, fazendo a donzela desejar ser aquela fenda, penetrada  por   aragem da noite.  Constança  precisava de  um rosto pra dar veracidade as suas  fantasias,  escolhendo  aquele rapaz. Crendo  que ele  libertaria  escravos de cativeiros,  arrancaria donzelas de seus  aposentos, poria em práticas idéias escritas em livros  e  de um rincão negligenciado pelo império, tornaria republica independente, ela  apaixonou-se pelo herói  criado em sua imaginação.  A brisa trazia até Constança os ruídos da guerra. A menina que ocupava os dias bordando, a noite, desejava ser mulher. Para ela, pouco importavam  os motivos da guerra,  queria a paz trançada entre os lenços, comemorada  em jantar de noivado. No campo de batalha, algumas léguas da cidade,  o jovem maragato  lutava pela vida, tentando desviar-se  das lanças e tiros de fuzis. O jovem soldado nem lembrava de Constança, tão pouco sabia o nome da jovem que sonhava com ele. Mas o disparo de um   tiro certeiro, trouxe-a como um anjo para junto dele.  Tombado de seu cavalo, ele sente o ferimento. Na tentativa de estancar o sangue, põe a mão no peito, sentindo a falta do botão. Surge em sua mente o rosto de Constança  iluminado por  doce sorriso, sendo esta a ultima lembrança  do soldado, antes de ser socorrido por Bento Gonçalves . A  batalha enfrentada por cerca de cinco mil homens, foi uma das maiores vitorias dos rebeldes gaúchos. A noite, cinco mil mulheres esperaram por eles.  Os que regressaram  enfrentavam batalhas mais amenas, nos braços de suas amadas, entre paredes que murmuram histórias de muitas vidas.  
Denize Domingos 







Rio Pardo


Esta residência em ruínas, testemunha uma bela  construção do período  colonial, encontra-se  interditada, em estado avançado de decomposição, amparada por escoras  oferecendo  risco de desabamento. Numa de suas vigas,  uma fenda na extensão de quase todo o segundo piso,  com       aproximadamente 9 cm, de largura, numa   envergadura bem maior,  evidencia a inclinação  da parede lateral; que considerando minha imprudência,  manteve-se firme diante de mim, enquanto seus fantasmas  contavam-me  historias.  








vídeo; Origens / Guerra dos Farrapos 


Durante o andamento  do  projeto Vestígios Açorianos, visitando diversas cidades gauchas,  surgiram outros  interesses; foram estabelecidos elos entre  lugares e pessoas. Com  alegria, continuarei ligada a estas cidades, contando historias sobre elas,  Agradeço especialmente   ao meu marido Gerson Paulo Jung,  companheiro de vida e viagens, tornando meu trabalho ainda mais agradável. De  forma  carinhosa e criativa, registro aqui  minhas impressões  destas  querencias distantes. 

domingo, 12 de julho de 2015



                                       Projeto Vestígios Açorianos

                       

                          projeto vestígios  açorianos 






          Projeto vestígios
                                     Açorianos 


Valorização da cultura Luso-Açoriana, retratada em placas de cerâmica similares aos antigos azulejos portugueses. 
Diferentes estilos arquitetônicos, ilustram 140 placas, marcando  a contribuição de outros povos que vieram colonizar o Rio Grande Do Sul.  Estampando azulejos em estilo português, a integração entre diferentes  culturas, marcam o desenvolvimento  retratado através da eclética arquitetura. Demonstrando a marcante influencia da cultura  açoriana; modernas construções e cartões postais das cidades, são  fotografadas e transformados em placas , lembrando os antigas azulejos portuguesas.  Estabelecendo  elo entre  passado e presente, as placas são   presentes às cidades integrantes do projeto Vestígios Açorianos.  Assim, fica demonstro que   mesmo em cidades colonizadas por outros povos, a influencia açoriana se manifesta  em  alguns vestígios deixados por imigrantes que tenham passado ou se estabelecido nestes locais. 
 Este projeto realizado com recursos do Fundo Municipal do RS,  no período  de 2014 a 2016, foi idealizado e coordenado por  Denize Domingos, artista plastica.    Integrou  pesquisa histórica, artes plásticas e literatura ao seu trabalho. A artista  visitou quatorze cidades, sendo doze de  colonização açoriana. Num total de 150  placas  de cerâmica doadas às cidades integrantes do projeto, a grande maioria foi instalada em  fachadas de prédios indicados pelas prefeituras dos municípios.  O trabalho  teve também a parte literária, onde a autora  publica neste blog,  relatos informativos sobre as cidades, textos  poéticos  e cartas literárias escritas por personagens. Imigrantes açorianos escrevem  cartas durante a travessia  quando deixaram a ilha dos açores ou após chegarem no Brasil.  Desta forma, a artista sensibiliza os leitores,  abordando  de forma   poética ,  narrativas  inspiradas nas  angustias, desafios  e desejos que motivaram  os primeiros casais açorianos a embarcarem  em contingentes caravelas , para   colonizarem terras distantes.  È  característica  da artista estabelecer elos e envolvimento com suas obras. Dando voz aos fantasmas do passado, mergulha na história  motivada em sensações  vivenciadas durante   visitas  à antigas construções.   Desta forma emotiva e inspirada, ela torna-se um canal entre os dois mundos,  resgatando  vestígios açorianos. 














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