Propriedade privada, a família encaminhou o pedido de tombamento do prédio, transformando-o em museu aberto a visitação
Localizada em Guaíba, foi sede da estancia de Antônio Ferreira Leitão (1793 )
No ciclo Farroupilha era moradia de José Gomes de Vasconsellos Jardim.
Reuniram-se em uma das salas, alguns idealistas e revolucionários insatisfeitos com o governo imperial, decidindo então, lutarem pela independência. Gomes Jardim, foi o primeiro presidente da República Riograndense, assumindo provisoriamente o cargo, em razão do líder Bento Gonçalves , ter sido capturado e preso, tomando a presidência assim que conseguir escapar da prisão. Nesta mesma casa, berço de liberdade, nasceu e se estruturou ideais e estrategias da revolução farroupilha, sendo tandem o leito de morte de Bento Gonçalves, falecendo dois anos apos o final da guerra.
Muitos estancieiros, usaram seus bens e rebanhos para alimentar e armar os exércitos farroupilhas, Gomes Jardim, no final da guerra, estava empobrecido. O governo imperialista, confiscou grande parte das terras do mentor revolucionário, pagando-lhe uma humilde mesada para que ele trabalhasse em um hospital, exercendo sua função de medico. Bento Gonçalves, depois de dez anos lutando pela independência do Rio Grande, concordou com o tratado de Ponche Verde, que deu por encerrado os conflitos entre imperialistas e farroupilhas. Em seguida, Bento Gonçalves adoeceu , contraindo uma infecção nos pulmões. Retornou a casa onde nasceu o sonho idealista, sendo hospedado e tratado pelo primo e medico Gomes Jardim. Ele venceu dez anos de batalhas armadas,
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Projeto vestígios açorianos
Denize Domingos
Dia 30 de outubro, enceram-se as viagens de pesquisa de campo, fotografando as 14 cidades participantes do projeto. Ficará a critério da produtora cultural Renata Beker, as publicações referentes a publicidade e visitas a entidades apoiadoras do projeto.
Depois de ter escolhido as cidades de colonização açoriana, viajado no tempo... me inspirei numa antiga penteadeira, um diário encontrado em uma das gavetas juntamente com um bloco de cartas.
Passeando no Brique da redenção, esbarrei na seguinte placa:
VENDE-SE
Barbada
Penteadeira com algumas lascas na madeira e manchas de tinta, aparente foco de cupim, corroendo o mogno, necessitando de urgente restauro. Leva de brinde um bloco de cartas e diário em branco, com alguns desenhos em grafite, sem assinatura.
Inclui Frete
R$ 140,00 Aceita-se troca
Imagens compartilhadas da internet
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Vestígios Açorianos
Um pouco de realismo a ficção
A COLONIZAÇÃO AÇORIANA NO RIO GRANDE DO SUL
(1752-63)*
...Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, "não é de admirar, com semelhantes disposições, que a viagem se transformasse num verdadeiro tormento, principalmente para as mulheres para as crianças que lhes faziam companhia, as quais, não poucas, não puderam resistir, adoecendo e morrendo durante os meses da travessia". Infelizmente, "muitos dos que abandonaram as ilhas na esperança de melhores dias no Brasil desejado, foram sendo sepultados nas águas do Atlântico, com os seus sonhos e com as suas ilusões. E os que resistiram chegaram ao seu destino como verdadeiros espectros". Com a deterioração da água após poucos dias e com a alimentação "exclusivamente composta de gêneros em conserva, pobre de víveres frescos, começassem já os viajantes a sofrer as conseqüências, com o aparecimento das mais variadas afecções. Na promiscuidade dos alojamentos, as afecções iam passando de uns para os outros. Surgia a parasitose. Surgiam as disenterias. E, com o decorrer dos dias, quando a viagem se adiantava, em meio do caminho entre o céu e o mar, aparecia o pior: o mal de Luanda". O pesquisador da temática açoriana João Borges Fortes, no livro Casais, relatou que, em 1750, Francisco de Souza Fagundes substituíra Feliciano Velho Oldenberg no transporte dos açorianos ao Brasil. Porém, o tratamento não melhorou. Um navio levava até três meses de viagem até à Ilha de Santa Catarina, e, quando nesta chegava, "eram doentes, mortos e moribundos no meio de um montão de estropiados que desembarcavam, num desfile tétrico ante o povo e autoridades". Manuel Escudeiro de Souza, governador da Ilha de Santa Catarina, fez um relato ao rei sobre um desembarque dos migrantes. "Três navios haviam chegado com pouca diferença um do outro. O último aportou no dia 20 de janeiro (1750), trazendo mortos 10 adultos e dezesseis crianças, outros morreram ao desembarcar, e 130 se recolheram doentes a dois hospitais, com malignas e correição escorbútica."Borges Fortes também se refere à desgraça que atingiu duas outras embarcações: "A 23 e 25 de maio desse terrível ano de 1753, ocorreu o doloroso naufrágio de duas sumacas carregadas de famílias açorianas que se encaminhavam para o Sul. O trágico acontecimento deu-se na barra Sul de Santa Catarina, na ponta da Ilha, que desse fatal sucesso recebeu o nome sinistro de Ponta dos Naufragados. Dos infelizes náufragos, só se salvaram 77 pessoas, que tudo perderam do que lhes pertencia, tendo de recorrer à bondade de seus semelhantes e do governo local, sendo todos de manifesta generosidade para com os desgraçados. Desses 77 salvos, poucos foram para o Rio Grande, a maior parte preferiu estabelecer-se na Vila Nova da Laguna, hoje cidade de Imbituba. Temos portanto, positivamente, que, até o ano de 1753, a estatística de 278 casais entrados no Rio Grande não sofreu oscilação sensível, portanto os desastres marítimos não permitiram acrescentar o saldo das remessas".
Constata-se que a viagem era o primeiro grande desafio a ser vencido. Tanto na rota Açores-Santa Catarina quanto na viagem em embarcações menores para Rio Grande. Desafio que seria acrescido de outros, ligados a posse da terra, à produção agrícola, à adaptação.....
Parcial Texto de Luiz Henrique Torres
Imagem retirada de algum blog
A história factual frequentemente difere da história oficial , registrada em livros, muitas vezes tendenciosos. Os muitos açorianos que embarcaram em contingentes navios, enfrentaram condições precárias. Ariscaram-se em busca de seus sonhos e futuro melhor. Mas cada um, fez a sua própria história, intima e singular, de acordo com motivações, valores pessoais e morais, indescritíveis e incompreensíveis, pois trata-se de emoções e não apenas fatos e datas. Algumas pessoas me questionaram porque eu não ressaltei a alegria, coragem e otimismo característico do povo açoriano. ... É que aqui neste blog,procuro resgatar fragmentos,possibilitando uma breve reflexão por parte daqueles que possivelmente, nunca enfrentaram um naufrágio, estando acostumados a desbravar o mundo incógnitos, navegando em segurança nos mares da internet, ou em transportes seguros, em primeira classe, ou ainda, de carona, como curiosos turistas. Viajantes dos mares , ares, estradas, das janelas e do tempo, estamos apenas de passagem neste mundo, tão carente de compreensão, afetos e poesia.
Denize Domingos
Imagem retirada de algum blog
Tempestade em Alto mar, YouTube
O sonho
Madre Deus
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Vestígios Açorianos
Histórias que se perderam no tempo
Preparo-me para iniciar a próxima etapa deste trabalho, visitando catorze cidades participantes do projeto. Será exposto neste blog as imagens registradas. Previamente selecionei alguns municípios de colonização açoriana, havendo "ancorado" em cada uma delas. Com um olhar atento a tudo que remete ao passado, me deixo levar no tempo. Crio supostas histórias, podendo ou não, terem sido vividas por alguma imigrante que zarpou da ilha do faial, mas continuou presa a ela, sonhando com noites de lua cheia, embaladas por canções com cheiro de mar.
Imagen de algum blog
Em algum antiquário
... Exposta num antiquário, dispersa em um canto pouco iluminado, a penteadeira do século XVII em bom estado, apresentava algumas marcas na madeira. Mas uma manchaazul anil, contrastando com o tom avermelhado do mogno chamava a atenção. Certamente, o móvel apropriado para guardar perfumes, jóias, escovas e outros objetos pessoais, havia sido usado como escrivaninha, por alguém que via a própria imagem refletida diante do espelho enquanto registrava suas memórias . A mancha de tinta sugeria diversas situações: Distração de quem manuseava a pena, sonolenta,esbarrou sobre o tinteiro. O descuido de uma criança. ou quem sabe, um movimento brusco, de quem foi flagrada anotando pensamentos. Ao lado do clássico móvel, um baú atraia a atenção de quem procura curiosidades, contando histórias parcialmente reveladas através de pequenos objetos, fotografias, e pedaços de vida manuscritas em paginas desmembradas de um contesto.
Noite de Tempestade em alto mar
.... Sonhava que os lençóis eram as ondas do mar, e tuas mãos mantinham aquecido o meu corpo. Em meus sonhos, o mar transborda, chegando bem próximo de mim, onde quer que eu esteja. A cada légua que me distancio da ilha do Faial, meu coração vai se fragmentando, sinto-me como o arquipélago dos açores, depois de sofrer um grande abalo sísmico. Acordei com gritos, é noite de tempestade, o barulho das ondas jogando-se furiosas sobre o navio, esta desestabilizando a embarcação. Estamos próximos do continente brasileiro. Um rochedo inclemente, espera que o barco se choque contra ele, para que a filha de Portugal seja lançada ao mar. Tranquei-me na cabine, só eu e meu diário, rabisco absurdas palavras enquanto penso que o barco vai afundar.
Meu querido diário...
guardo em tuas folhas meus segredos, manuseando habilmente a colorida pena de falcão, afogando o rígido bico de metal impetuosamente mergulhado no solicito tinteiro. Livro de fantasiosas histórias, deito em ti minhas palavras, inundadas de sentimentos. És vós, o leito das minhas intempestivas emoções, expressas em frases, delineadas pelo bico de pena sobre o papel. Entre eles, há a leveza da pluma, a metódica das linhas, e um infinito abismo que os separa. O paralelo mundo traçado no papel, torna inacessíveis as palavras. Este imensurável vazio, me diz do tempo que passa tão veloz e o silencio que berra em meus ouvidos.
Alfonsina querendo dormir !
Ana Moura- Por Minha Conta
Textos: Denize Domingos
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
VESTÍGIOS AÇORIANOS
As Ilhas dos açores... que ficaram na lembrança
Os Açores são um arquipélago que contém nove majestosas ilhas, sendo estas batizadas cada qual com o seu nome. Deste modo, no testamento do Infante D. Henrique (1460), as ilhas do arquipélago foram designadas da seguinte forma: Santa Maria, São Miguel, Ilha de Jesus Cristo, Graciosa, S. Luís, S. Dinis, São Jorge, Santa Iria e S. Tomás.Tradicionalmente, associa-se os nomes dados de acordo com o calendário litúrgico,ou seja: São Miguel teria sido encontrado no dia de São Miguel e assim sucessivamente. Outros investigadores acreditam que Santa Maria e São Miguel têm esses nomes devido à devoção do Infante D. Henrique e D. Pedro por esses santos, visto que os nomes da maior parte das ilhas estão associados À Ordem de Cristo, da qual o Infante D. Henrique era Mestre. Assim podemos ver que o nome D. Dinis era do rei que constituiu a Ordem de Cristo; Santa Iria era a santa mártir, natural de Tomar, sede da Ordem; S. Tomás seria o santo a quem é dedicada a capela do Convento de Tomar; Jesus Cristo era o próprio nome da Ordem e São Luís o santo de que o Infante D Henrique era também muito devoto. Algumas destas ilhas mantiveram os nomes originais, mas outras modificaram, como é o caso da Ilha de Jesus Cristo que passou para Terceira (por ter sido a terceira a ser encontrada), a Ilha de S. Luís conhecida atualmente por Faial; a ilha de S. Dinis por Pico (devido à elevação ao centro que constitui o ponto mais alto de Portugal). Santa Iria dá lugar a Flores e S. Tomás passa a Corvo.
A cada ilha dos Açores, o povo açoriano atribuiu uma cor, distinguindo-as deste modo: Santa Maria - Ilha Amarela (pelas giestas), São Miguel - Ilha Verde (pelos prados e matas), Terceira - Ilha Lilás (pelas latadas de glicínias ou lilases), Graciosa - Ilha Branca (pelas suas rochas claras), São Jorge - Ilha Vermelha (pela flor de café que lá se chegou a cultivar), Pico - Ilha Preta (pela rocha vulcânica), Faial - Ilha Azul (pelos "novelos" de hortênsias azuis), Flores - Ilha Rosa (pelas azáleas) e Corvo - Ilha Castanha (pelas vacas corvinias).
Pesquisa:WWW.azores.islandas
Nas cidades gauchas, a arquitetura luso açoriana, relativamente preservada, é sobreposta por ecléticos e modernos estilos, enfatizando o progresso. Os antigos casarões, guardam histórias e dão um toque nostálgico as cidades, estabelecendo elo com o passado. A importância de restauros, impedindo que se perca parte da história, é defendida por leis de incentivo a cultura e patrimônio histórico. Mas aqui, neste espaço, tentei restaurar emoções, suplantadas pelo tempo, que apaga distantes vestígios açorianos
Atualmente, não necessitamos nos submetermos a grandes riscos e desafios para atravessarmos oceanos, enfrentar tempestades, vencer tantos medos, desbravarmos novos continentes, rasgar o céu para alcançarmos o horizonte. As informações e conhecimentos estão disponíveis de diversas formas, guardadas em prateleiras, nas salas de aulas, em janelas abertas para o mundo.
Luana, a jovem descendente da imigrante Alfonsina, que chegou no Rio Grande em 1752, comoveu-se ao ler todas as cartas e diário que a camponesa havia guardado durante toda a sua vida. Os primeiros registros datavam de 1749. Alfonsina era analfabeta quando abandonou a ilha do Faial. Trouxe com ela, junto com poucos pertences, conchas marinhas, uma pequena caixa de madeira, o diário, contendo na primeira pagina as seguintes palavras:
Ilha do Faial, Portugal, 1749 Convento do Carmo
Minha doce e rebelde afilhada Alfonsina, saibas que onde tu estiveres, meus pensamentos e orações estarão sempre contigo. Ainda que nunca tenhas decorado as orações e salmos que te ensinei, nem te dedicado a aprender a ler e escrever, sei que teu coração guardará ou libertará as palavras que jamais deverão serem pronunciadas a pessoas que não as compreendam, não desejem ou não mereçam escuta-las. Conserve sempre teu sorriso, mesmo que ele esconda tristeza, afastando de ti, todas as mágoas. A vida é um grande espelho e sorrirá para ti. Perdoe os que forem intolerantes contigo, e busque o perdão daqueles que tu ofendeu. Saibas, que nem um pecado e maior que a misericórdia e bondade de Deus. Se teu coração sonhador, for maior que a tua virtude,te arrastando por caminhos obscuros, saibas que um amor verdadeiro, jamais deixara que tu te percas. Do contrário, prefiras andar sozinha. Sejas sempre agradecida aqueles que te amam e confiam em ti, e mereça o amor de quem te cativou. Sempre vi em teus olhos um brilho intenso, ardente como uma chama, que só se apagará quando as lagrimas dos teus olhos dissiparem para sempre a nevoa que te cega.
E por fim, minha querida, nunca esqueça desta tua madrinha, e se puder aliviar teu coração, saibas que quando fiz meus votos, tornei-me uma carmelita descalça. Não permita que te castiguem por não usares meias brancas, andar descalça na areia, nos campos, na terra... Pise suavemente nas nuvens,sentindo que há algo sustentando teu ser, quando acreditares que não há chão embaixo de teus pés, sentindo-te a deriva de teus passos indecisos e inseguros. Não deixe, minha preciosa flor, que arranquem os espinhos que te protegem, dilacerem as pétalas que fazem de ti um ser completo e único.
Guarde este diário como um carinho meu, mesmo que ainda não consigas decifrar estas linhas delineadas de forma confusa para teus olhos. Sei que um dia elas terão significado para ti, quando aprenderes a decifra-las, quando a nevoa que inebria tua consciência, se esvair iluminando tua vida.
Com todo o meu amor, a minha menina, para sempre.
Irmã Tereza de Paula
Imagem retirada de algum blog
...A bordo do navio, durante os longos meses em que Alfonsina navegava, o barco debatia-se contra as ondas, tentando impedir que os filhos de Portugal fossem para longe. A camponesa aprendeu a ler e escrever. Antes disso, ela delineava alguns rabiscos, delicados desenhos e símbolos, que certamente, somente para ela tinham algum significado. Entre as folhas, ela guardava pétalas de flores, trevos e uma cravina mantendo ainda um rastro de perfume, preenchia as folhas em branco de um diário queza vazio.
No convés do barco, Alfonsina rabiscava seus enigmas, chamou a atenção de um rapas, que solidário a ensinou a ler e escrever. A dedicação e falta de outras atividades contribuíram para o rápido aprendizado, e a camponesa passou a escrever as cartas que nunca enviou. Em alto mar, em momentos de náuseas, febre, medo, saudades, dúvidas, ela registrava recordações ou delírios, que não tem nenhuma relevância histórica, mas foram guardados como relíquia, compondo fragmentos do passado de Alfonsina.
Esta pagina foi escrita a pedido de uma amiga, tem um sentido especial, pois será apresentada por Martha Sozo a sua professora de doutorado, uma Portuguesa que quer conhecer o projeto Vestígios Açorianos, e levará uma placa para Portugal.
Foto: Kin Viana Arte gráfica: Ana mafra projeto de arte: Denize Domingos E o Porto de Dolores, torna-se um Porto Alegre
... O ano de 1752 é o referencial cronológico que assinala o desencadear da imigração açoriana para o Rio Grande do Sul, a partir de sua chegada ao porto do Rio Grande de São Pedro. Em anos anteriores, açorianos já desembarcaram no cais da então Vila do Rio Grande, porem, a politica dos casais se configurou em 1752 com a chegada de grande numero de ilhéus. Este capitulo épico no povoamento do Rio Grande do Sul acarretou o surgimento de várias cidades gaúchas e a difusão de hábitos alimentares, religiosidade, linguajares, praticas agrícolas, adaptação arquitetônica, fatos marcantes na cultura luso açoriana.
Passaram-se seculos apos a vinda dos sessenta casais açorianos que chegaram na vila de Rio Grande. Deveriam rumar em direção as missões, povoando as reduções jesuítas, mas traçaram seus destinos. Mudaram o curso da viagem, desembarcando no Porto de Dolores, ficando conhecido como Porto dos casais, tornando-o um Porto Alegre, ainda que alguns filhos de Portugal, tenham desembarcado sozinhos, pois aqueles que sucumbiram a doenças, foram devolvidos ao mar retornando as origens. A trajetória de cada individuo, se faz a partir de suas escolhas. As agruras deixadas para traz, deram lugar a coragem e alegria que este povo demonstrou, mantendo suas tradições, sendo cultivadas por futuras gerações, valorizando a contribuição de seus antepassados. O futuro se encarrega de derrubar preconceitos, agregar novos valores renovando arcaicos padrões, suplantando rígidos costumes e regras opressivas. Sempre haverá pessoas presas em suas ilhas, a espera de embarcações que as leve a novos continentes, ou dispostas a jogarem-se no mar, permitindo que as marés os conduzam a horizontes brilhantes. A cada dia, uma nova aventura nos aguarda, cabendo-nos aprender que somos parte de um único continente desmembrado em pedaços, dividido por águas salgadas, que separam pedaços de terra, mas não impedem de cruzarmos o oceano, desbravando nossas próprias fronteiras.
Haverá um tempo, em que o mar e a terra , doarão fraternamente seus frutos, de acordo com a fome de quem planta ou pesca, sem ferir a natureza.
Imagem retirada da internet
terça-feira, 19 de agosto de 2014
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
PROJETO VESTÍGIOS AÇORIANOS
ARQUITETURAS E ROMANCES
Em Piratini, foto da janela de um antigo casarão
São poucas as paredes erguidas com suor e esforço de imigrantes açorianos,
que ainda mantém-se de pé, sem
curvarem-se ao descaso dos homens e inclemência do tempo.
As edificações ainda resistem, em épocas distantes de seus apogeus , algumas, atraem pela assimetria, provocada por abalos na
estrutura, desgaste das vigas que
sustentam resistentes telhas de barro, que nem sempre, resistem a tempestades e
vendavais. Outras, mais suntuosas, relutam entre extremos de imponência e decadência. Mas poucos se importam com elas,
alem daqueles, que procuram em pequenos detalhes, encontrarem importantes vestígios açorianos.
O DIÁRIO DE ALFONSINA
...Do antigo sobrado
luzo açoriano da rua Dom Inácio de Souza, as arqueadas janelas em azul colonial separava
o mundo real e a vida de Alfonsina, acrescida de sonhos e
quinquilharias. A mais de dois séculos de sua morte, ela definitivamente,
abandou esta vida para juntar-se a seres do outro mundo.
Deixou entre tantos
objetos, três ou quatro jóias resgatadas
de penhor, peças de porcelana lascadas, o incansável relógio de parede, sempre prevenindo-a
que seu tempo estava findando. E também,
alguns livros, apenas de poesias e
romances... sobrou ainda uma penteadeira, poupada pelos cupins, ao certo, comoveram-se ao inalarem o adocicado perfume de flores silvestres
que a camponesa costumava usar, embriagando-se com lembranças das tardes aquecidas
ao por do sol na ilha em que viveu sua juventude. A família de Alfonsina era pequena, não havia laços
afetivos entre as distantes gerações de descendentes da primeira imigrante a
pisar descalça nas terras do Rio Grande, em 1752.
Assim, não houve briga nem disputa pelos bens, a não ser,
para decidirem quem se livraria daquelas
tralhas. Uma das descendentes de Alfonsina, gostava de restaurar antiguidades,
ficando então, com a velha penteadeira. Após levá-la para sua casa, acomodou-a num canto da garagem. Sentou-se diante do móvel, refletindo-se no
espelho manchado pela corrosão do aço que revestia o cristal, impedindo a
transparência. Mas Luana, uma jovem de dezenove anos, enxergou alem da própria
imagem, sentiu um misto de curiosidade e tristeza. Iniciando o trabalho de
recuperação da peça, encontrou uma pequena caixa, contendo um maço de cartas e
um diário atados por um laço de fita, e certamente, também envoltos em afetos e nostalgia.
Luana, delicadamente pegou
o diário como se estivesse segurando nas
mãos uma pequena andorinha de asas quebradas. Cuidadosamente, ela desfez o laço, folhou as paginas, havia resquícios de algo
que deveria ter sido uma viçosa flor, pétalas
de rosa, folhas secas, no fundo da caixa: pequenas conchas, uma estrela
do mar e outros objetos que fizeram
parte da história de Alfonsina.
A jovem, acomodou-se
numa poltrona, olhando para a penteadeira, via por traz dela, uma grande janela, exibindo um bonito
jardim, tendo no centro, uma fonte cirandando
ao som de preguiçosas gotas
d’água, escorrendo da boca de um
anjo que observava atento, do alto do chafariz. A imagem da água deslizando incessante, lembrava o passado que se esvai por entre os dedos da gente, sem ser possível deter-lo.
Aleatoriamente, Luana folhou as paginas do diário, abrindo um portal no tempo, que separava as duas
mulheres que já tiveram a mesma idade, em épocas tão diferentes...
Ilha do Faial, Portugal, 1753
Leopoldo, meu anjo e demônio
Quando
estávamos sozinhos, não conseguia pronunciar teu nome, pois para mim, chamavas-te minha paixão, amor, querido meu... Fostes a parte
mais necessária da minha vida, e também
do meu corpo, que se completava estando junto ao teu, me fazendo esquecer que
precisava manter-los distantes. Tu me
atraia com anzóis afiados,contendo doces frutos, mantendo-me junto a ti, me fazendo sentir medo e fascínio.
Tremia em teus braços, me emprestavas teu casaco, pensando ser frio. Nas Tardes
em que somente o sol foi testemunha, corríamos de mãos dadas em campos salpicados de cravinas. Eu as enredava em meus pés, caindo sobreas flores. Sei que também fingias escorregar por cima de mim. Ter por
segundos o peso do teu corpo sobre o meu, era o mesmo que sentir o calor do
sol me queimando. Eu sentia um arrepio percorrer meu corpo inteiro. O mel
escorria de teus olhos, faziam eu me incendiar como as chamas do sol.
Minhas emoções me assustavam. Eu corria de volta para casa, desejando ficar contigo. Dormia em uma cama quentinha, ao lado de minha irmã. Sentia um misto de sensações que os jardins
da ilha do faial me inspiravam. Minha febre
era tão cálida como os raios do sol que
castigava os pescadores. Eu pensava no frescor da relva, alastrada sobre a superfície
das pedras, formadas por cinzas de um vulcão apaziguado, depois de derramar ardentes lavas sobre a ilha. Paisagens comuns para os açorianos, tomavam diferente sentido para mim. Tornaram-me sedenta,
desejando beber todo o oceano que envolvia a ilha e não alcançava o centro dela. Queria
ser ousada e perseverante como as hortênsias que cercavam longos caminhos , avencas e flores silvestres que revestiam a fina camada de terra, cobrindo as pedras, enraizado-se junto delas. O barulho do mar bradava teu nome, não me deixando
dormir. Eu esperava jogares a terceira
pedra em minha janela para pular em teus braços. Meu amor, acreditava estar ancorando num porto seguro. Naquela noite,
o mar estava agitado, debatia-se contra as pedras e a tua voz descompassou meu coração, agitou a minha alma. Deitada
na areia, deixei que fosses as ondas do
mar, percorrendo todo o meu corpo. Apenas o delicado linho das minhas vestes nos separava
e era tão inconveniente quanto a luz da aurora abreviando nosso encontro.
O delicado tecido, desistiu de se opor entre nós, permitindo semeares o meu ventre. Demorei a dar-me conta que o fruto do nosso amor crescia dentro de mim. Durante pouco tempo, continuamos tropeçando em flores, deitando juntos nos campos sem que a prudente cortina de linho ocultasse meu corpo, protegendo-me do perigo. Ser tua namorada era a minha melhor e maior aventura. Meu sorriso ganhou um brilho diferente, e eu dançava contente nas rodas em dias de festas. Não foi a minha alegria que nos separou, foi o teu egoísmo, acreditando em mexericos daquelas beatas da igreja. Não te importou com os meus sentimentos, passeavas de mãos dadas com a filha da irmã do padre Antonio. Ela nunca andou descalça na praia e não tropeçava em flores. Quando te procurei para contar sobre a minha gravidez, vi nos teus olhos um demônio. Naquele momento abri mão dos
meus sonhos, e tudo que referia-se a eles. Tuas atitudes abriram feridas, cravando em meu peito o
punhal da duvida, oferecido por falsos amigos que esperavam receberem dos
meus lábios mais que um sorriso. Não aceitou falar com meus pais, mas jogou pedras em minha
janela, me esperando na praia sem levar-me contigo quando o dia amanheceu. Fiquei desonrada na aldeia, deixei de andar ao teu lado sobre flores, seguindo sozinha, pisando em espinhos. Ainda te amando, não voltarei a aproximar-me do mar nem enredar-me nas ramas de cravinas. Mesmo sabendo que nunca te enviarei estas palavras, escrevo estas linhas em meu diário, para que mesmo distante, eu possa sentir o aroma que vem do oceano, sempre que folhar as
paginas deste diário, sempre, que eu sentir
saudades de ti...
Alfonsina, Com medo do mar.
Luana caminhou pensativa, aproximando-se do móvel, suspirou profundamente, sentindo no ar um suave aroma de flores silvestres que a antiga comoda ainda exalava. Deslizou as pontas dos dedos sobre o diário de Alfonsina, esbarrando numa lata de tinta que deitou-se imprudente sobre o papel, formando uma indelével mancha, semelhante ao passado de Alfonsina. A jovem descendente da camponesa, ascendeu um cigarro e ligou o aparelho de som para escutar algumas músicas, enquanto limpava aquela sujeira. Refletiu sobre o "acidente" sem saber ao certo, se a lata de tinta deveria estar melhor guardada, se o papel poderia ser a prova de tinta, se as manchas... deram um colorido especial as palavras, e na vida de Alfonsina.
Clara estrela
Milton Nascimento
Nei Lisboa
Não me pergunte a hora
Denize Domingos
quarta-feira, 30 de julho de 2014
VESTÍGIOS AÇORIANOS
ARES DE MILONGA, NAS RUAS DE PORTO ALEGRE
Ainda, prestando uma singela homenagem a um porto "não muito alegre" segui o mapa de Quintana, perdendo-me nas ruas do Bom Fim. Atravessando a Osvaldo Aranha, senti os ares da cidade,escutei o som difuso vindo do Araujo Vianna, ocidente,reitoria...
A música sempre invadiu minha alma, entrava pelas janelas do Instituto de Educação, convidando a matar aula. Morando na Antão de farias, uma quadra e meia me distanciava de judeus e hare krishna. Comia prachada a noite no templo da Tomas Flores, nos domingos de manha, uma vizinha convidava para os cultos judaicos na sinagoga, na Barros Cassal. Ana Fagundes,colega de classe, prima de Neto Fagundes, mas nada tradicionalista, arrastava as magras do bonfa até o bar João. Tradicionalmente depois dos shows no Araujo, reitoria...os músicos da terra mantinham o ritual de oferecerem vinho de garrafão aos camaradas. No meio da Antão, uma casa quase em pedaços me separava do atelier de Ibere Camargo. Do terraço do meu prédio eu sentia o cheiro de tinga, espiava-o pintando. Sonhava em ser artista, um diabinho estava perto e me escutou. A cidade era bem mais alegre e colorida do que as telas do grande pintor. Subindo a Osvaldo, cheguei quase até o fim da Protásio, indo estudar um pouco de História na FAPA segurando pesados livros. Em fins de semana, panfletos e bandeiras de todos os partidos, eram carregados com entusiasmo, por mãos de quem acreditava e construía um futuro mais democrático e liberal, incluído todas as tribos. Um futuro, que não voltará nunca mais e estará para sempre, guardado na lembrança de quem viveu distraída, nas ruas de Porto Alegre, olhando as faxadas estranhas dos prédios, andando descalça na redenção, molhando os pés no Guaíba em dias quentes de verão.
Quem viver verá, que não foi em vão, o tempo mostra que de tudo, sempre sobra alguma coisa.
Nico Nicolaiewsky, Mario Quintana, Ibere Camargo, Cine Bristol, Ocidente, Terreira da Tribo, Associação Macrobiótica, Colmeia....Bar João, Uni música, Uni cena, Magros do bonfa, Araujo Viana, tardes na redenção... Minha homenagem!
Denize Domingos
domingo, 13 de julho de 2014
Projeto Vestigos Açorianos
Um trabalho de arte integrada que conta com o apoio da secretaria Municipal de Cultura e FAC
Este
trabalho trata-se de uma homenagem ao povo açoriano. A partir da seleção de
imagens, representativas de cadacidade participante do projeto, uso uma
técnica aplicada em cerâmica relembrando
antigos azulejos portugueses. Estas peças serão fixadas em fachadas de prédios,
ficando expostas permanentemente. As pesquisas de imagens, levaram-me a um mergulho
no passado, me envolvendoem fantasiosas aventuras,
romances , tristezas e alegrias que suponho fazer parte de muitas histórias não
contadas.Então... Faço uso da licença poética
econfidencio aqui, alguns segredos.
Foi longa a travessia... Aqueles que venceram os desafios do mar, derramaram sobre ele as ilusões, sepultando-as no fundo das salgadas águas do atlântico.Determinados e fortalecidos,desembarcaram no porto de Rio Grande, desbravaram o continente, semeando esperanças e sonhos. Dizem, que a primeira imigrante açoriana a desembarcar do navio, retirou seus sapatos para sentir a terra firme acariciar seus pés.
Projeto de arte que sera aplicada em cerâmica
fotografia; Kin Viana
Ilha do faial, janeiro de 1756 Alfonsina
Querida amiga, não imagina o quanto me alegrastes enviando-me uma carta informando que chegastes a salvo no continente. Estava certa de que serias capas de enfrentar todas as agruras e riscos desta longa viagem, e também, superar as desilusões e magoas que plantamos em teu doce coração.
Fostes ingênua, acreditando que o povo da aldeia seria capaz de compreender e perdoar tua ousadia,afrontando nossos costumes, sorrindo para os gajos, dançando sozinha no centro das rodas em dias festivos da igreja. E ainda, passeava acompanhada de outra rapariga atrevida como tu. Usavam os cabelos soltos esvoaçantes, chamando a atenção, andavam descalças na areia. Ficaste difamada e as mães das moças de família ,não permitiam que elas fossem vistas perto de ti.Estimada amiga, como me arrependo por ter dado ouvidos aquelas beatas. Rezei e pedi perdão, Deus foi generoso contigo, permitindo que um ateu, descrente, te tomasse como esposa. Meu irmão nunca te esqueceu e se culpa por ter sido tão intolerante. Alfonsina, saístes daqui com outros casais de aventureiros para fazer tua vida num pais distante. O Brasil tem um clima tropical, poderás andar sempre com os pés descalços e até banhar-se em cascatas, rios... Mas fique longe do mar, não conte a ele teus segredos, ele não perdoa os filhos de Portugal que preferem as águas doces. E por fim, quando olhares para a lua, lembre dos muitos pedidos que fizemos, e realize todos teus sonhos, minha boa e leal amiga.
Com carinho daquela que gostaria de ter sido tua cunhada: