terça-feira, 7 de outubro de 2014

                   Vestígios   Açorianos  


Propriedade privada, a família  encaminhou o pedido de tombamento do prédio, transformando-o em museu aberto a visitação  


Localizada em Guaíba,  foi  sede da estancia de Antônio Ferreira Leitão (1793 )
No ciclo Farroupilha era moradia de José Gomes de Vasconsellos Jardim. 
Reuniram-se em uma das salas,  alguns  idealistas e revolucionários insatisfeitos com  o governo imperial, decidindo então,  lutarem pela independência.  Gomes Jardim,  foi o primeiro presidente da República Riograndense, assumindo provisoriamente o cargo, em razão do líder Bento Gonçalves , ter sido capturado e preso, tomando a presidência assim que  conseguir escapar da prisão. Nesta mesma casa, berço de liberdade,  nasceu e se estruturou  ideais e estrategias da revolução farroupilha, sendo tandem  o leito de morte  de Bento Gonçalves,  falecendo   dois anos apos  o final da guerra. 



Muitos  estancieiros, usaram seus  bens e rebanhos  para  alimentar e armar os  exércitos farroupilhas,  Gomes Jardim,  no final da guerra, estava empobrecido. O governo imperialista, confiscou  grande parte das  terras do mentor  revolucionário, pagando-lhe uma humilde mesada para que ele trabalhasse em um hospital, exercendo  sua função  de medico. Bento Gonçalves, depois de dez anos  lutando pela independência do Rio Grande, concordou com o tratado de Ponche Verde, que deu por encerrado os conflitos entre imperialistas e farroupilhas. Em seguida,  Bento Gonçalves  adoeceu , contraindo uma infecção nos pulmões. Retornou  a casa onde nasceu o sonho idealista, sendo hospedado e  tratado pelo primo e medico Gomes Jardim. Ele venceu dez anos de  batalhas armadas, 


  










sexta-feira, 26 de setembro de 2014



Projeto vestígios  açorianos


Denize Domingos 


Dia 30 de outubro, enceram-se as viagens de pesquisa de campo, fotografando as 14 cidades participantes do projeto.  Ficará  a critério da produtora cultural Renata Beker,  as publicações referentes a publicidade e visitas a entidades apoiadoras do projeto. 



Depois de ter escolhido as cidades de colonização açoriana, viajado no tempo...  me inspirei numa antiga penteadeira, um diário  encontrado em uma das gavetas juntamente com   um bloco de cartas.  
Passeando no Brique  da redenção, esbarrei na seguinte placa:


VENDE-SE  

Barbada 


Penteadeira  com algumas lascas na madeira e manchas de tinta, aparente foco  de cupim,  corroendo o mogno, necessitando de urgente restauro. Leva de brinde  um bloco de cartas  e diário em branco, com alguns desenhos em grafite, sem assinatura. 

 Inclui Frete  

R$ 140,00  Aceita-se troca 



Imagens  compartilhadas da internet 




                                                       














segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Vestígios Açorianos 


Um pouco de realismo a ficção 





A COLONIZAÇÃO AÇORIANA NO RIO GRANDE DO SUL 
(1752-63)*

...Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, "não é de admirar, com semelhantes disposições, que a viagem se transformasse num verdadeiro tormento, principalmente para as mulheres para as crianças que lhes faziam companhia, as quais, não poucas, não puderam resistir, adoecendo e morrendo durante os meses da travessia". Infelizmente, "muitos dos que abandonaram as ilhas na esperança de melhores dias no Brasil desejado, foram sendo sepultados nas águas do Atlântico, com os seus sonhos e com as suas ilusões. E os que resistiram chegaram ao seu destino como verdadeiros espectros". Com a deterioração da água após poucos dias e com a alimentação "exclusivamente composta de gêneros em conserva, pobre de víveres frescos, começassem já os viajantes a sofrer as conseqüências, com o aparecimento das mais variadas afecções. Na promiscuidade dos alojamentos, as afecções iam passando de uns para os outros. Surgia a parasitose. Surgiam as disenterias. E, com o decorrer dos dias, quando a viagem se adiantava, em meio do caminho entre o céu e o mar, aparecia o pior: o mal de Luanda". O pesquisador da temática açoriana João Borges Fortes, no livro Casais, relatou que, em 1750, Francisco de Souza Fagundes substituíra Feliciano Velho Oldenberg no transporte dos açorianos ao Brasil. Porém, o tratamento não melhorou. Um navio levava até três meses de viagem até à Ilha de Santa Catarina, e, quando nesta chegava, "eram doentes, mortos e moribundos no meio de um montão de estropiados que desembarcavam, num desfile tétrico ante o povo e autoridades". Manuel Escudeiro de Souza, governador da Ilha de Santa Catarina, fez um relato ao rei sobre um desembarque dos migrantes. "Três navios haviam chegado com pouca diferença um do outro. O último aportou no dia 20 de janeiro (1750), trazendo mortos 10 adultos e dezesseis crianças, outros morreram ao desembarcar, e 130 se recolheram doentes a dois hospitais, com malignas e correição escorbútica."Borges Fortes também se refere à desgraça que atingiu duas outras embarcações: "A 23 e 25 de maio desse terrível ano de 1753, ocorreu o doloroso naufrágio de duas sumacas carregadas de famílias açorianas que se encaminhavam para o Sul. O trágico acontecimento deu-se na barra Sul de Santa Catarina, na ponta da Ilha, que desse fatal sucesso recebeu o nome sinistro de Ponta dos Naufragados. Dos infelizes náufragos, só se salvaram 77 pessoas, que tudo perderam do que lhes pertencia, tendo de recorrer à bondade de seus semelhantes e do governo local, sendo todos de manifesta generosidade para com os desgraçados. Desses 77 salvos, poucos foram para o Rio Grande, a maior parte preferiu estabelecer-se na Vila Nova da Laguna, hoje cidade de Imbituba. Temos portanto, positivamente, que, até o ano de 1753, a estatística de 278 casais entrados no Rio Grande não sofreu oscilação sensível, portanto os desastres marítimos não permitiram acrescentar o saldo das remessas".
Constata-se que a viagem era o primeiro grande desafio a ser vencido. Tanto na rota Açores-Santa Catarina quanto na viagem em embarcações menores para Rio Grande. Desafio que seria acrescido de outros, ligados a posse da terra, à produção agrícola, à adaptação.....

Parcial Texto   de Luiz Henrique Torres

  
 Imagem  retirada de algum blog 

A história  factual frequentemente difere  da história oficial , registrada em livros, muitas vezes tendenciosos.   Os muitos  açorianos que embarcaram em contingentes navios, enfrentaram condições precárias. Ariscaram-se em busca de seus sonhos e  futuro melhor. Mas  cada um,  fez a  sua própria história, intima e singular, de acordo com motivações,  valores pessoais e morais, indescritíveis e incompreensíveis, pois trata-se de emoções e não apenas fatos e datas.  Algumas pessoas me questionaram porque eu não ressaltei a alegria, coragem e otimismo característico do povo açoriano.  ... É  que aqui neste  blog,procuro resgatar fragmentos,possibilitando uma breve reflexão por parte daqueles que   possivelmente, nunca enfrentaram um naufrágio, estando acostumados a desbravar o mundo incógnitos, navegando em segurança nos mares da internet, ou em  transportes seguros, em primeira classe, ou ainda, de carona, como curiosos turistas. 

Viajantes dos mares , ares, estradas, das janelas e do tempo, estamos apenas de passagem neste mundo, tão carente de compreensão, afetos  e poesia. 

  Denize Domingos
      




                                         Imagem retirada de algum blog

Tempestade em Alto mar,  YouTube 






                                                               O sonho
                                                             Madre Deus

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Vestígios  Açorianos 




Histórias que se perderam  no tempo

Preparo-me para iniciar a próxima etapa deste  trabalho, visitando  catorze cidades participantes do projeto. Será exposto  neste blog as  imagens  registradas. Previamente selecionei alguns municípios de colonização açoriana,  havendo "ancorado" em cada uma delas.  Com um olhar atento a tudo que remete ao passado, me deixo levar no tempo. Crio supostas histórias,  podendo ou não, terem sido vividas por alguma imigrante que zarpou da ilha  do faial, mas continuou  presa  a ela,  sonhando com noites de lua cheia, embaladas por canções com cheiro de mar. 



                Imagen de algum blog 


      Em algum antiquário 

...  Exposta num antiquário, dispersa em um canto pouco iluminado, a penteadeira do século XVII em bom estado, apresentava  algumas marcas na madeira. Mas uma mancha azul anil, contrastando com o tom avermelhado do mogno chamava a atenção. Certamente, o móvel apropriado  para guardar  perfumes, jóias, escovas e outros objetos pessoais,  havia sido usado como escrivaninha, por alguém que  via a própria imagem refletida diante do espelho enquanto registrava suas memórias . A mancha de tinta sugeria diversas situações:  Distração de quem  manuseava a pena, sonolenta,esbarrou sobre o  tinteiro.  O descuido de uma criança. ou quem sabe, um movimento brusco, de quem foi  flagrada anotando pensamentos. Ao lado do clássico móvel, um baú atraia a atenção de quem procura curiosidades, contando histórias  parcialmente reveladas através de pequenos objetos, fotografias, e pedaços de vida manuscritas em paginas desmembradas de um contesto.  






Noite de Tempestade em alto mar




.... Sonhava que os lençóis eram as ondas do mar, e tuas mãos  mantinham aquecido o meu corpo.  Em meus sonhos, o mar transborda, chegando bem próximo  de mim, onde quer que eu esteja. A cada légua que me distancio da ilha do Faial, meu coração vai se fragmentando, sinto-me como o arquipélago dos açores, depois de sofrer um grande abalo sísmico. Acordei com gritos, é noite  de   tempestade,  o barulho das ondas jogando-se furiosas sobre o navio, esta desestabilizando a embarcação. Estamos próximos do continente brasileiro. Um rochedo inclemente, espera que o barco se choque contra ele, para que a  filha de Portugal  seja lançada ao mar. Tranquei-me na cabine, só eu e meu diário, rabisco absurdas  palavras enquanto  penso que   o barco vai afundar. 






Meu querido diário...
guardo em  tuas folhas meus segredos, manuseando  habilmente a  colorida  pena de falcão, afogando o  rígido bico de metal impetuosamente mergulhado no  solicito tinteiro. Livro de fantasiosas histórias, deito em ti minhas palavras, inundadas de sentimentos.   És vós, o leito das minhas intempestivas emoções, expressas em frases, delineadas  pelo  bico de pena  sobre o  papel. Entre eles, há a leveza da pluma, a  metódica das linhas, e um  infinito abismo   que os separa.  O paralelo mundo traçado no papel, torna inacessíveis as palavras.  Este imensurável  vazio,  me diz do tempo que passa tão veloz e o silencio que berra em meus ouvidos. 
                                                    Alfonsina querendo dormir  !






                                              Ana Moura- Por Minha Conta 




                                                                                            Textos: Denize  Domingos 











quarta-feira, 27 de agosto de 2014



VESTÍGIOS AÇORIANOS
               

 As Ilhas dos açores... que ficaram na lembrança 



Os Açores são um arquipélago que contém nove majestosas  ilhas, sendo estas batizadas cada qual com o seu nome. Deste modo, no testamento do Infante D. Henrique (1460), as ilhas do arquipélago foram designadas da seguinte forma: Santa Maria, São Miguel, Ilha de Jesus Cristo, Graciosa, S. Luís, S. Dinis, São Jorge, Santa Iria e S. Tomás.Tradicionalmente, associa-se os nomes dados de acordo com o calendário litúrgico,ou seja: São Miguel teria sido encontrado no dia de São Miguel e assim sucessivamente.   Outros investigadores acreditam que Santa Maria e São Miguel têm esses nomes devido à devoção do Infante D. Henrique e D. Pedro por esses santos, visto que os nomes da maior parte das ilhas estão associados À Ordem de Cristo, da qual o Infante D. Henrique era Mestre.  Assim podemos ver que o nome D. Dinis era do rei que constituiu a Ordem de Cristo; Santa Iria era a santa mártir, natural de Tomar, sede da Ordem; S. Tomás seria o santo a quem é dedicada a capela do Convento de Tomar; Jesus Cristo era o próprio nome da Ordem e São Luís o santo de que o Infante D Henrique era também muito devoto. Algumas destas ilhas mantiveram os nomes originais, mas outras modificaram, como é o caso da Ilha de Jesus Cristo que passou para Terceira (por ter sido a terceira a ser encontrada), a Ilha de S. Luís conhecida atualmente por Faial; a ilha de S. Dinis por Pico (devido à elevação ao centro que constitui o ponto mais alto de Portugal). Santa Iria dá lugar a Flores e S. Tomás passa a Corvo.
A cada ilha dos Açores, o povo açoriano atribuiu uma cor, distinguindo-as deste modo: Santa Maria - Ilha Amarela (pelas giestas), São Miguel - Ilha Verde (pelos prados e matas), Terceira - Ilha Lilás (pelas latadas de glicínias ou lilases), Graciosa - Ilha Branca (pelas suas rochas claras), São Jorge - Ilha Vermelha (pela flor de café que lá se chegou a cultivar), Pico - Ilha Preta (pela rocha vulcânica), Faial - Ilha Azul (pelos "novelos" de hortênsias azuis), Flores - Ilha Rosa (pelas azáleas) e Corvo - Ilha Castanha (pelas vacas corvinias).

Pesquisa:WWW.azores.islandas






 Nas cidades gauchas, a arquitetura luso açoriana, relativamente preservada, é sobreposta por  ecléticos e modernos estilos, enfatizando o progresso.  Os antigos casarões, guardam histórias e dão um toque nostálgico as cidades, estabelecendo elo com o passado. A importância de restauros, impedindo que se perca parte da história, é defendida por leis de incentivo a cultura e patrimônio histórico. 
    Mas aqui,
     neste espaço, tentei restaurar emoções,
                                         suplantadas pelo tempo, que apaga  distantes  vestígios açorianos

  
Atualmente, não necessitamos nos  submetermos  a  grandes  riscos e desafios para atravessarmos  oceanos,  enfrentar tempestades, vencer tantos medos, desbravarmos novos continentes, rasgar o céu para alcançarmos  o horizonte.  As informações e conhecimentos estão disponíveis de diversas formas, guardadas  em prateleiras, nas salas de aulas, em janelas abertas para o mundo. 
Luana, a jovem descendente  da imigrante  Alfonsina,  que chegou no Rio Grande em 1752, comoveu-se ao  ler  todas as cartas e diário que  a camponesa  havia guardado durante toda a sua vida. Os primeiros registros datavam de 1749. Alfonsina era analfabeta quando abandonou a ilha do Faial. Trouxe com ela, junto com poucos pertences, conchas marinhas, uma pequena caixa de madeira,  o diário,  contendo na primeira pagina  as seguintes palavras:



Ilha do Faial, Portugal, 1749 Convento do Carmo

Minha doce e  rebelde  afilhada Alfonsina, saibas que onde tu estiveres, meus pensamentos e orações  estarão sempre contigo. Ainda que nunca tenhas decorado as orações e salmos que te ensinei, nem te dedicado a aprender a ler e escrever, sei que  teu coração guardará ou libertará  as palavras que jamais deverão serem pronunciadas a pessoas que não as compreendam, não desejem ou não mereçam escuta-las. Conserve sempre teu sorriso, mesmo que ele esconda  tristeza,  afastando de ti, todas as mágoas. A  vida é   um  grande espelho e sorrirá para ti. Perdoe os que   forem  intolerantes contigo, e busque o perdão daqueles que tu ofendeu. Saibas, que nem um pecado e maior que a misericórdia e bondade de Deus. Se teu coração sonhador, for maior que a tua virtude,te  arrastando  por caminhos obscuros, saibas que um amor verdadeiro, jamais  deixara que tu te percas. Do contrário, prefiras andar sozinha. Sejas sempre agradecida  aqueles que te amam e confiam em ti, e mereça o amor de quem te cativou. Sempre vi em teus olhos um brilho  intenso, ardente como uma chama, que só se apagará quando as lagrimas dos teus olhos  dissiparem  para sempre a  nevoa que te cega. 
E por fim, minha querida, nunca esqueça desta  tua madrinha, e se puder  aliviar teu coração, saibas que quando fiz meus votos, tornei-me uma carmelita descalça. Não permita que te castiguem por não usares meias brancas, andar descalça na areia, nos campos, na terra... Pise suavemente nas nuvens,sentindo que há algo  sustentando teu ser, quando acreditares que não há chão embaixo de teus pés, sentindo-te a deriva de teus passos indecisos e inseguros. Não deixe, minha preciosa flor, que arranquem os espinhos que te protegem, dilacerem as pétalas que fazem de ti um ser completo e único. 
Guarde este diário como um carinho meu, mesmo que ainda não consigas decifrar estas linhas delineadas de forma confusa para teus olhos. Sei que um dia elas terão significado para ti, quando aprenderes a decifra-las, quando a nevoa que inebria tua consciência, se esvair iluminando tua vida. 

Com todo o meu amor, a minha menina, para sempre.
Irmã Tereza de Paula  





Imagem retirada  de algum blog


...A bordo do navio, durante os longos meses em que Alfonsina navegava, o barco debatia-se contra as ondas, tentando impedir que os filhos de Portugal fossem para longe. A camponesa aprendeu a ler e escrever. Antes disso, ela delineava alguns rabiscos, delicados desenhos e símbolos, que certamente, somente para ela tinham algum significado. Entre as folhas, ela guardava pétalas de flores, trevos e uma cravina mantendo ainda um rastro de perfume, preenchia  as folhas em branco de um diário queza vazio.
No convés do barco, Alfonsina rabiscava seus enigmas, chamou a atenção de um rapas, que solidário a ensinou a ler e escrever. A dedicação e falta de outras atividades contribuíram para o rápido aprendizado, e a camponesa passou a  escrever as cartas que nunca enviou. Em alto mar, em momentos de náuseas, febre, medo, saudades, dúvidas,  ela registrava  recordações  ou delírios, que  não tem nenhuma  relevância  histórica, mas foram guardados  como relíquia, compondo fragmentos do passado de  Alfonsina. 

Denize Domingos



                                                               



     



                                                                    Ana Moura
                                                                  A Penumbra




                                                               Imagens retiradas da internet 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Vestígios  Açorianos 

Esta pagina  foi escrita  a pedido de uma amiga,  tem um sentido especial, pois será apresentada  por Martha Sozo a  sua professora de doutorado, uma Portuguesa que quer conhecer o projeto Vestígios Açorianos, e levará uma placa   para  Portugal.




                                                                       Foto: Kin Viana
                                                                   Arte gráfica: Ana mafra
                                                              projeto de arte: Denize Domingos

E  o Porto de Dolores, torna-se um Porto Alegre 



... O ano de 1752 é o referencial cronológico que assinala o desencadear da imigração açoriana para o Rio Grande do Sul, a partir de sua chegada ao porto do Rio Grande de São Pedro. Em anos anteriores, açorianos já desembarcaram no cais da então Vila do Rio Grande, porem, a politica dos casais se configurou em 1752 com a chegada de grande numero de ilhéus. Este capitulo épico no povoamento do Rio Grande do Sul acarretou o surgimento de várias cidades gaúchas e a difusão de hábitos alimentares, religiosidade, linguajares, praticas agrícolas, adaptação arquitetônica, fatos marcantes na cultura luso açoriana. 
Passaram-se  seculos apos a vinda  dos sessenta casais açorianos   que  chegaram   na vila de Rio Grande.  Deveriam  rumar em direção as  missões, povoando as reduções jesuítas, mas traçaram  seus destinos. Mudaram  o curso da viagem, desembarcando no  Porto de Dolores, ficando conhecido como Porto dos casais, tornando-o  um Porto Alegre, ainda que alguns filhos de Portugal, tenham desembarcado sozinhos, pois aqueles que sucumbiram a doenças,  foram  devolvidos ao mar retornando as origens.  A  trajetória de cada individuo, se faz a partir de suas escolhas. As agruras deixadas para traz,  deram lugar a coragem e alegria que este povo  demonstrou, mantendo suas tradições, sendo cultivadas  por futuras gerações, valorizando a contribuição de seus antepassados.  O futuro se encarrega de derrubar preconceitos, agregar novos valores  renovando arcaicos padrões, suplantando rígidos costumes e regras opressivas. Sempre haverá pessoas presas em suas ilhas, a espera de  embarcações que as leve a novos continentes, ou dispostas a jogarem-se no mar, permitindo que as marés os conduzam a horizontes brilhantes. A cada dia, uma nova aventura  nos aguarda, cabendo-nos aprender que somos parte de um único continente desmembrado em pedaços, dividido por águas salgadas, que separam  pedaços de terra, mas não impedem de cruzarmos o oceano, desbravando nossas próprias fronteiras. 

Haverá um tempo, em que o mar e a terra , doarão  fraternamente seus frutos, de acordo com a fome de quem planta ou pesca, sem ferir a  natureza. 






Imagem  retirada da internet















segunda-feira, 11 de agosto de 2014

PROJETO  VESTÍGIOS AÇORIANOS

ARQUITETURAS E ROMANCES 


 
Em Piratini, foto da  janela de  um antigo casarão 



São poucas  as  paredes erguidas  com suor e esforço de imigrantes açorianos, que ainda mantém-se   de pé, sem curvarem-se ao descaso dos homens e inclemência do tempo.
As edificações  ainda resistem, em épocas distantes de seus apogeus , algumas, atraem   pela assimetria, provocada por abalos na estrutura, desgaste das  vigas que sustentam resistentes telhas de barro, que nem sempre, resistem a tempestades e vendavais. Outras, mais suntuosas, relutam entre extremos de imponência  e decadência. Mas poucos se importam com elas, alem daqueles, que procuram em pequenos detalhes, encontrarem importantes vestígios açorianos.





O DIÁRIO DE ALFONSINA 

...Do  antigo sobrado luzo açoriano da rua Dom Inácio de Souza, as arqueadas janelas em azul colonial separava o mundo real  e a  vida de  Alfonsina, acrescida de sonhos e quinquilharias. A mais de  dois séculos de sua morte, ela definitivamente, abandou esta vida   para juntar-se a seres do outro mundo.
Deixou  entre tantos objetos, três ou quatro  jóias resgatadas de penhor, peças de porcelana lascadas, o incansável relógio de parede, sempre prevenindo-a  que seu tempo estava findando. E também, alguns  livros, apenas de poesias e romances... sobrou ainda uma penteadeira, poupada pelos cupins, ao certo, comoveram-se  ao inalarem o adocicado perfume de flores silvestres que a camponesa costumava usar, embriagando-se com lembranças das tardes aquecidas ao por do sol na ilha em que viveu sua juventude.  A família  de Alfonsina era pequena, não havia laços afetivos entre as distantes gerações de descendentes da primeira imigrante a pisar descalça nas terras do Rio Grande, em 1752.
Assim, não houve briga nem disputa pelos bens, a não ser, para decidirem quem se livraria daquelas  tralhas. Uma das descendentes de Alfonsina, gostava de restaurar antiguidades, ficando então, com a velha penteadeira. Após levá-la para sua  casa, acomodou-a num canto da garagem.   Sentou-se diante do móvel, refletindo-se no espelho manchado pela corrosão do aço que revestia o cristal, impedindo a transparência.  Mas Luana, uma jovem de  dezenove anos, enxergou alem da própria imagem, sentiu um misto de curiosidade e tristeza. Iniciando o trabalho de recuperação da peça, encontrou uma pequena caixa, contendo um maço de cartas e um diário atados por um laço de fita, e certamente, também envoltos em  afetos e nostalgia.
Luana, delicadamente  pegou o diário como se estivesse segurando  nas mãos uma pequena andorinha de asas quebradas. Cuidadosamente, ela  desfez o laço,  folhou as paginas, havia resquícios de algo que deveria ter sido uma viçosa flor,  pétalas de rosa, folhas secas, no fundo da caixa: pequenas conchas, uma estrela do mar e outros objetos que  fizeram parte da história de Alfonsina. 
 A jovem, acomodou-se numa poltrona, olhando para a penteadeira, via por traz  dela, uma grande janela, exibindo um bonito jardim, tendo no centro, uma fonte cirandando  ao som de preguiçosas  gotas d’água, escorrendo  da boca  de  um anjo que observava  atento, do alto do chafariz. A imagem da água deslizando incessante, lembrava o passado que se esvai por entre os dedos da gente, sem ser possível deter-lo.
Aleatoriamente, Luana  folhou as paginas do diário, abrindo  um portal no tempo, que separava as duas mulheres que já tiveram a mesma idade, em épocas tão diferentes...



Ilha do Faial, Portugal, 1753

Leopoldo, meu anjo e demônio

Quando estávamos sozinhos, não conseguia pronunciar teu nome, pois para mim, chamavas-te minha paixão, amor,  querido meu... Fostes a parte mais necessária  da minha vida, e também do meu corpo, que se completava estando junto ao teu, me fazendo esquecer que precisava  manter-los distantes. Tu me atraia com  anzóis afiados,contendo doces frutos, mantendo-me   junto a ti, me fazendo  sentir medo e fascínio. Tremia em teus braços, me emprestavas teu casaco, pensando ser frio. Nas  Tardes  em que somente o sol foi testemunha, corríamos de mãos dadas em campos salpicados de cravinas.  Eu as enredava em  meus pés, caindo sobre as flores. Sei que também fingias escorregar por cima de mim.  Ter  por segundos o peso do teu corpo sobre o meu, era o mesmo que sentir o calor do sol me queimando. Eu sentia um arrepio percorrer meu corpo inteiro. O mel escorria de teus olhos, faziam eu  me  incendiar   como as chamas do sol.
Minhas emoções me assustavam. Eu corria de volta para casa, desejando ficar contigo. Dormia em uma cama quentinha, ao lado de minha irmã. Sentia  um misto de sensações que os jardins da ilha do faial me inspiravam. Minha  febre era  tão cálida como os raios do sol que castigava os pescadores. Eu pensava no frescor da relva, alastrada sobre a superfície das pedras, formadas por cinzas  de um vulcão apaziguado, depois de derramar  ardentes lavas sobre a ilha. Paisagens comuns para os açorianos, tomavam diferente sentido para mim. Tornaram-me sedenta, desejando beber todo o oceano que envolvia  a ilha e não alcançava o centro dela. Queria ser ousada e perseverante  como as hortênsias que cercavam  longos caminhos ,  avencas e flores silvestres que revestiam  a fina camada de terra, cobrindo as pedras,  enraizado-se junto delas.  O barulho do mar  bradava teu nome, não me deixando dormir.  Eu esperava jogares   a terceira pedra em minha janela para  pular em teus braços. Meu amor, acreditava estar   ancorando num porto  seguro. Naquela noite, o mar estava agitado, debatia-se contra as pedras e a tua voz descompassou meu coração, agitou a minha alma.  Deitada na areia,  deixei que fosses  as ondas do mar,  percorrendo todo o meu corpo.  Apenas o delicado linho das minhas vestes nos separava e era tão inconveniente quanto a luz da aurora  abreviando nosso encontro.
O delicado tecido, desistiu de se opor  entre nós, permitindo  semeares o meu ventre. Demorei a dar-me  conta  que o fruto do nosso amor crescia  dentro de mim. Durante pouco tempo, continuamos tropeçando em flores, deitando juntos nos campos  sem  que a prudente cortina de linho ocultasse meu corpo, protegendo-me do perigo. Ser tua namorada era a minha melhor e maior aventura. Meu sorriso ganhou um brilho diferente, e eu  dançava contente nas rodas em dias de festas. Não foi a minha alegria que nos separou, foi o teu egoísmo, acreditando em  mexericos  daquelas beatas da igreja. Não te importou com os meus sentimentos, passeavas de mãos dadas com a filha da irmã do padre Antonio. Ela nunca andou descalça na praia e não tropeçava em flores. Quando te procurei para  contar   sobre a minha gravidez, vi nos teus olhos um demônio. Naquele momento abri mão dos meus sonhos, e tudo que  referia-se  a eles. Tuas atitudes  abriram feridas, cravando em meu peito o punhal da duvida, oferecido por falsos amigos que  esperavam receberem dos meus lábios mais que um sorriso. Não aceitou falar com meus pais,   mas  jogou pedras em minha janela, me esperando na praia sem levar-me contigo quando o dia amanheceu. Fiquei desonrada na aldeia, deixei de andar  ao teu lado sobre flores, seguindo sozinha, pisando em espinhos.  Ainda te amando, não voltarei  a aproximar-me   do mar nem enredar-me nas ramas de cravinas. Mesmo sabendo que nunca te enviarei   estas palavras,  escrevo estas linhas em meu diário,  para que mesmo distante, eu possa sentir   o aroma  que vem do oceano, sempre que folhar as paginas deste diário, sempre, que eu sentir  saudades de ti... 


Alfonsina,  Com  medo do mar.  

Luana  caminhou pensativa, aproximando-se do móvel,  suspirou profundamente, sentindo no ar um suave aroma de flores silvestres que a antiga comoda ainda exalava.  Deslizou  as pontas dos dedos  sobre  o diário de Alfonsina, esbarrando numa lata  de tinta que deitou-se imprudente  sobre o papel, formando uma  indelével mancha, semelhante ao passado de Alfonsina. A jovem descendente da camponesa, ascendeu um cigarro e  ligou o aparelho de som para escutar algumas músicas, enquanto limpava aquela sujeira. Refletiu sobre o "acidente"  sem saber ao certo, se a lata de tinta deveria estar melhor  guardada, se o papel  poderia ser a prova de tinta, se as manchas... deram  um colorido especial  as palavras, e na vida de Alfonsina.





                                                                 Clara estrela 
                                                            Milton Nascimento 








                                                                Nei Lisboa
                                                            Não me pergunte a hora 




                                      Denize Domingos 





quarta-feira, 30 de julho de 2014

VESTÍGIOS   AÇORIANOS  


ARES DE MILONGA, NAS RUAS DE PORTO ALEGRE



Ainda, prestando uma singela homenagem a um porto "não muito alegre"  segui o mapa de Quintana, perdendo-me nas ruas do Bom Fim. Atravessando a Osvaldo Aranha, senti os ares da cidade,escutei o som difuso vindo do Araujo Vianna, ocidente,reitoria... 
A música sempre invadiu minha alma, entrava pelas janelas do Instituto de Educação, convidando a matar  aula. Morando na Antão de farias, uma quadra e meia me distanciava de judeus e hare krishna. Comia prachada a noite no templo da Tomas Flores,  nos domingos de manha, uma vizinha convidava para os cultos judaicos na sinagoga, na Barros Cassal. Ana Fagundes,colega de classe, prima de Neto Fagundes, mas nada tradicionalista, arrastava as magras do bonfa até o bar João. Tradicionalmente depois dos shows no Araujo, reitoria...os músicos da terra mantinham o ritual de oferecerem  vinho de garrafão aos camaradas. No meio da Antão, uma casa  quase em pedaços me separava do atelier de Ibere Camargo. Do terraço do meu prédio eu sentia o cheiro de tinga,  espiava-o pintando.  Sonhava em ser artista, um diabinho estava perto e me escutou. A cidade  era bem mais alegre e colorida do que as  telas do grande pintor. Subindo a Osvaldo, cheguei  quase até o fim  da Protásio, indo estudar um pouco de História na FAPA segurando pesados livros. Em fins de semana, panfletos e bandeiras de todos os partidos, eram carregados com entusiasmo, por mãos de quem acreditava e construía um futuro mais democrático e liberal, incluído todas as tribos. Um futuro, que não voltará nunca mais e estará para sempre, guardado na lembrança de quem  viveu distraída, nas ruas de Porto Alegre, olhando as faxadas estranhas dos prédios,  andando descalça na redenção, molhando os pés no Guaíba em dias quentes de verão.
 Quem viver verá, que não foi em vão, o tempo mostra que de tudo, sempre sobra alguma coisa. 
 Nico Nicolaiewsky,  Mario Quintana, Ibere Camargo, Cine Bristol, Ocidente, Terreira da Tribo, Associação Macrobiótica, Colmeia....Bar João, Uni música, Uni cena, Magros do bonfa, Araujo Viana, tardes na redenção...
                                Minha homenagem!
                                                              Denize Domingos









domingo, 13 de julho de 2014

 Projeto Vestigos Açorianos
   Um trabalho de arte integrada que conta com o apoio da secretaria Municipal de Cultura e FAC





Este trabalho trata-se de uma homenagem ao povo açoriano. A partir da seleção de imagens,   representativas de cada  cidade participante do projeto, uso uma técnica aplicada em cerâmica  relembrando antigos azulejos portugueses. Estas peças serão fixadas em fachadas de prédios, ficando expostas permanentemente. As pesquisas de imagens, levaram-me a um mergulho no passado, me envolvendo  em fantasiosas aventuras, romances , tristezas e alegrias que suponho fazer parte de muitas histórias não contadas.  Então... Faço uso da licença poética e  confidencio aqui, alguns segredos. 











Foi longa a travessia... Aqueles que venceram os desafios do mar, derramaram sobre ele as ilusões, sepultando-as no fundo das salgadas águas do atlântico.Determinados e fortalecidos,desembarcaram no porto de Rio Grande, desbravaram o continente, semeando esperanças e  sonhos. Dizem, que a primeira imigrante açoriana  a desembarcar  do navio, retirou seus sapatos para sentir  a terra firme acariciar seus pés.




































Projeto de arte que sera aplicada em cerâmica
fotografia; Kin Viana



Ilha do faial, janeiro de 1756

Alfonsina

Querida amiga, não imagina o quanto me alegrastes enviando-me uma carta informando que chegastes a salvo no continente. Estava certa de que serias capas de enfrentar todas as agruras e riscos desta longa viagem, e também, superar as desilusões e magoas que plantamos em teu doce coração.

Fostes ingênua, acreditando que o povo da aldeia seria capaz de compreender e perdoar tua ousadia,afrontando nossos costumes, sorrindo para os gajos, dançando sozinha no centro das rodas em dias festivos da igreja. E ainda, passeava acompanhada de outra rapariga atrevida como tu. Usavam os cabelos soltos esvoaçantes, chamando a atenção, andavam descalças na areia. Ficaste difamada e as mães das moças de família ,não permitiam que elas fossem vistas perto de ti.Estimada amiga, como me arrependo por ter dado ouvidos aquelas beatas. Rezei e pedi perdão, Deus foi generoso contigo, permitindo que um ateu, descrente, te tomasse como esposa. Meu irmão nunca te esqueceu e se culpa por ter sido tão intolerante. Alfonsina, saístes daqui com outros casais de aventureiros para fazer tua vida num pais distante. O Brasil tem um clima tropical, poderás andar sempre com os pés descalços e até banhar-se em cascatas, rios... Mas fique longe do mar, não conte a ele teus segredos, ele não perdoa os filhos de Portugal que preferem  as águas doces. E por fim, quando olhares para a lua, lembre dos muitos pedidos que fizemos, e realize todos teus sonhos, minha boa e leal amiga. 

Com carinho daquela que gostaria de ter sido tua cunhada:
           Maria Teresa

                                                               Canção do mar
                                                                   Dulce pontes