PROJETO VESTÍGIOS AÇORIANOS
ARQUITETURAS E ROMANCES
Em Piratini, foto da janela de um antigo casarão
São poucas as paredes erguidas com suor e esforço de imigrantes açorianos,
que ainda mantém-se de pé, sem
curvarem-se ao descaso dos homens e inclemência do tempo.
As edificações ainda resistem, em épocas distantes de seus apogeus , algumas, atraem pela assimetria, provocada por abalos na
estrutura, desgaste das vigas que
sustentam resistentes telhas de barro, que nem sempre, resistem a tempestades e
vendavais. Outras, mais suntuosas, relutam entre extremos de imponência e decadência. Mas poucos se importam com elas,
alem daqueles, que procuram em pequenos detalhes, encontrarem importantes vestígios açorianos.
O DIÁRIO DE ALFONSINA
...Do antigo sobrado
luzo açoriano da rua Dom Inácio de Souza, as arqueadas janelas em azul colonial separava
o mundo real e a vida de Alfonsina, acrescida de sonhos e
quinquilharias. A mais de dois séculos de sua morte, ela definitivamente,
abandou esta vida para juntar-se a seres do outro mundo.
Deixou entre tantos
objetos, três ou quatro jóias resgatadas
de penhor, peças de porcelana lascadas, o incansável relógio de parede, sempre prevenindo-a
que seu tempo estava findando. E também,
alguns livros, apenas de poesias e
romances... sobrou ainda uma penteadeira, poupada pelos cupins, ao certo, comoveram-se ao inalarem o adocicado perfume de flores silvestres
que a camponesa costumava usar, embriagando-se com lembranças das tardes aquecidas
ao por do sol na ilha em que viveu sua juventude. A família de Alfonsina era pequena, não havia laços
afetivos entre as distantes gerações de descendentes da primeira imigrante a
pisar descalça nas terras do Rio Grande, em 1752.
Assim, não houve briga nem disputa pelos bens, a não ser,
para decidirem quem se livraria daquelas
tralhas. Uma das descendentes de Alfonsina, gostava de restaurar antiguidades,
ficando então, com a velha penteadeira. Após levá-la para sua casa, acomodou-a num canto da garagem. Sentou-se diante do móvel, refletindo-se no
espelho manchado pela corrosão do aço que revestia o cristal, impedindo a
transparência. Mas Luana, uma jovem de dezenove anos, enxergou alem da própria
imagem, sentiu um misto de curiosidade e tristeza. Iniciando o trabalho de
recuperação da peça, encontrou uma pequena caixa, contendo um maço de cartas e
um diário atados por um laço de fita, e certamente, também envoltos em afetos e nostalgia.
Luana, delicadamente pegou
o diário como se estivesse segurando nas
mãos uma pequena andorinha de asas quebradas. Cuidadosamente, ela desfez o laço, folhou as paginas, havia resquícios de algo
que deveria ter sido uma viçosa flor, pétalas
de rosa, folhas secas, no fundo da caixa: pequenas conchas, uma estrela
do mar e outros objetos que fizeram
parte da história de Alfonsina.
A jovem, acomodou-se
numa poltrona, olhando para a penteadeira, via por traz dela, uma grande janela, exibindo um bonito
jardim, tendo no centro, uma fonte cirandando
ao som de preguiçosas gotas
d’água, escorrendo da boca de um
anjo que observava atento, do alto do chafariz. A imagem da água deslizando incessante, lembrava o passado que se esvai por entre os dedos da gente, sem ser possível deter-lo.
Aleatoriamente, Luana folhou as paginas do diário, abrindo um portal no tempo, que separava as duas
mulheres que já tiveram a mesma idade, em épocas tão diferentes...
Ilha do Faial, Portugal, 1753
Leopoldo, meu anjo e demônio
Quando
estávamos sozinhos, não conseguia pronunciar teu nome, pois para mim, chamavas-te minha paixão, amor, querido meu... Fostes a parte
mais necessária da minha vida, e também
do meu corpo, que se completava estando junto ao teu, me fazendo esquecer que
precisava manter-los distantes. Tu me
atraia com anzóis afiados,contendo doces frutos, mantendo-me junto a ti, me fazendo sentir medo e fascínio.
Tremia em teus braços, me emprestavas teu casaco, pensando ser frio. Nas Tardes
em que somente o sol foi testemunha, corríamos de mãos dadas em campos salpicados de cravinas. Eu as enredava em meus pés, caindo sobre as flores. Sei que também fingias escorregar por cima de mim. Ter por
segundos o peso do teu corpo sobre o meu, era o mesmo que sentir o calor do
sol me queimando. Eu sentia um arrepio percorrer meu corpo inteiro. O mel
escorria de teus olhos, faziam eu me incendiar como as chamas do sol.
Minhas emoções me assustavam. Eu corria de volta para casa, desejando ficar contigo. Dormia em uma cama quentinha, ao lado de minha irmã. Sentia um misto de sensações que os jardins
da ilha do faial me inspiravam. Minha febre
era tão cálida como os raios do sol que
castigava os pescadores. Eu pensava no frescor da relva, alastrada sobre a superfície
das pedras, formadas por cinzas de um vulcão apaziguado, depois de derramar ardentes lavas sobre a ilha. Paisagens comuns para os açorianos, tomavam diferente sentido para mim. Tornaram-me sedenta,
desejando beber todo o oceano que envolvia a ilha e não alcançava o centro dela. Queria
ser ousada e perseverante como as hortênsias que cercavam longos caminhos , avencas e flores silvestres que revestiam a fina camada de terra, cobrindo as pedras, enraizado-se junto delas. O barulho do mar bradava teu nome, não me deixando
dormir. Eu esperava jogares a terceira
pedra em minha janela para pular em teus braços. Meu amor, acreditava estar ancorando num porto seguro. Naquela noite,
o mar estava agitado, debatia-se contra as pedras e a tua voz descompassou meu coração, agitou a minha alma. Deitada
na areia, deixei que fosses as ondas do
mar, percorrendo todo o meu corpo. Apenas o delicado linho das minhas vestes nos separava
e era tão inconveniente quanto a luz da aurora abreviando nosso encontro.
O delicado tecido, desistiu de se opor entre nós, permitindo semeares o meu ventre. Demorei a dar-me conta que o fruto do nosso amor crescia dentro de mim. Durante pouco tempo, continuamos tropeçando em flores, deitando juntos nos campos sem que a prudente cortina de linho ocultasse meu corpo, protegendo-me do perigo. Ser tua namorada era a minha melhor e maior aventura. Meu sorriso ganhou um brilho diferente, e eu dançava contente nas rodas em dias de festas. Não foi a minha alegria que nos separou, foi o teu egoísmo, acreditando em mexericos daquelas beatas da igreja. Não te importou com os meus sentimentos, passeavas de mãos dadas com a filha da irmã do padre Antonio. Ela nunca andou descalça na praia e não tropeçava em flores. Quando te procurei para contar sobre a minha gravidez, vi nos teus olhos um demônio. Naquele momento abri mão dos
meus sonhos, e tudo que referia-se a eles. Tuas atitudes abriram feridas, cravando em meu peito o
punhal da duvida, oferecido por falsos amigos que esperavam receberem dos
meus lábios mais que um sorriso. Não aceitou falar com meus pais, mas jogou pedras em minha
janela, me esperando na praia sem levar-me contigo quando o dia amanheceu. Fiquei desonrada na aldeia, deixei de andar ao teu lado sobre flores, seguindo sozinha, pisando em espinhos. Ainda te amando, não voltarei a aproximar-me do mar nem enredar-me nas ramas de cravinas. Mesmo sabendo que nunca te enviarei estas palavras, escrevo estas linhas em meu diário, para que mesmo distante, eu possa sentir o aroma que vem do oceano, sempre que folhar as
paginas deste diário, sempre, que eu sentir
saudades de ti...
Alfonsina, Com medo do mar.
Luana caminhou pensativa, aproximando-se do móvel, suspirou profundamente, sentindo no ar um suave aroma de flores silvestres que a antiga comoda ainda exalava. Deslizou as pontas dos dedos sobre o diário de Alfonsina, esbarrando numa lata de tinta que deitou-se imprudente sobre o papel, formando uma indelével mancha, semelhante ao passado de Alfonsina. A jovem descendente da camponesa, ascendeu um cigarro e ligou o aparelho de som para escutar algumas músicas, enquanto limpava aquela sujeira. Refletiu sobre o "acidente" sem saber ao certo, se a lata de tinta deveria estar melhor guardada, se o papel poderia ser a prova de tinta, se as manchas... deram um colorido especial as palavras, e na vida de Alfonsina.
Clara estrela
Milton Nascimento
Nei Lisboa
Não me pergunte a hora
Denize Domingos


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