segunda-feira, 11 de agosto de 2014

PROJETO  VESTÍGIOS AÇORIANOS

ARQUITETURAS E ROMANCES 


 
Em Piratini, foto da  janela de  um antigo casarão 



São poucas  as  paredes erguidas  com suor e esforço de imigrantes açorianos, que ainda mantém-se   de pé, sem curvarem-se ao descaso dos homens e inclemência do tempo.
As edificações  ainda resistem, em épocas distantes de seus apogeus , algumas, atraem   pela assimetria, provocada por abalos na estrutura, desgaste das  vigas que sustentam resistentes telhas de barro, que nem sempre, resistem a tempestades e vendavais. Outras, mais suntuosas, relutam entre extremos de imponência  e decadência. Mas poucos se importam com elas, alem daqueles, que procuram em pequenos detalhes, encontrarem importantes vestígios açorianos.





O DIÁRIO DE ALFONSINA 

...Do  antigo sobrado luzo açoriano da rua Dom Inácio de Souza, as arqueadas janelas em azul colonial separava o mundo real  e a  vida de  Alfonsina, acrescida de sonhos e quinquilharias. A mais de  dois séculos de sua morte, ela definitivamente, abandou esta vida   para juntar-se a seres do outro mundo.
Deixou  entre tantos objetos, três ou quatro  jóias resgatadas de penhor, peças de porcelana lascadas, o incansável relógio de parede, sempre prevenindo-a  que seu tempo estava findando. E também, alguns  livros, apenas de poesias e romances... sobrou ainda uma penteadeira, poupada pelos cupins, ao certo, comoveram-se  ao inalarem o adocicado perfume de flores silvestres que a camponesa costumava usar, embriagando-se com lembranças das tardes aquecidas ao por do sol na ilha em que viveu sua juventude.  A família  de Alfonsina era pequena, não havia laços afetivos entre as distantes gerações de descendentes da primeira imigrante a pisar descalça nas terras do Rio Grande, em 1752.
Assim, não houve briga nem disputa pelos bens, a não ser, para decidirem quem se livraria daquelas  tralhas. Uma das descendentes de Alfonsina, gostava de restaurar antiguidades, ficando então, com a velha penteadeira. Após levá-la para sua  casa, acomodou-a num canto da garagem.   Sentou-se diante do móvel, refletindo-se no espelho manchado pela corrosão do aço que revestia o cristal, impedindo a transparência.  Mas Luana, uma jovem de  dezenove anos, enxergou alem da própria imagem, sentiu um misto de curiosidade e tristeza. Iniciando o trabalho de recuperação da peça, encontrou uma pequena caixa, contendo um maço de cartas e um diário atados por um laço de fita, e certamente, também envoltos em  afetos e nostalgia.
Luana, delicadamente  pegou o diário como se estivesse segurando  nas mãos uma pequena andorinha de asas quebradas. Cuidadosamente, ela  desfez o laço,  folhou as paginas, havia resquícios de algo que deveria ter sido uma viçosa flor,  pétalas de rosa, folhas secas, no fundo da caixa: pequenas conchas, uma estrela do mar e outros objetos que  fizeram parte da história de Alfonsina. 
 A jovem, acomodou-se numa poltrona, olhando para a penteadeira, via por traz  dela, uma grande janela, exibindo um bonito jardim, tendo no centro, uma fonte cirandando  ao som de preguiçosas  gotas d’água, escorrendo  da boca  de  um anjo que observava  atento, do alto do chafariz. A imagem da água deslizando incessante, lembrava o passado que se esvai por entre os dedos da gente, sem ser possível deter-lo.
Aleatoriamente, Luana  folhou as paginas do diário, abrindo  um portal no tempo, que separava as duas mulheres que já tiveram a mesma idade, em épocas tão diferentes...



Ilha do Faial, Portugal, 1753

Leopoldo, meu anjo e demônio

Quando estávamos sozinhos, não conseguia pronunciar teu nome, pois para mim, chamavas-te minha paixão, amor,  querido meu... Fostes a parte mais necessária  da minha vida, e também do meu corpo, que se completava estando junto ao teu, me fazendo esquecer que precisava  manter-los distantes. Tu me atraia com  anzóis afiados,contendo doces frutos, mantendo-me   junto a ti, me fazendo  sentir medo e fascínio. Tremia em teus braços, me emprestavas teu casaco, pensando ser frio. Nas  Tardes  em que somente o sol foi testemunha, corríamos de mãos dadas em campos salpicados de cravinas.  Eu as enredava em  meus pés, caindo sobre as flores. Sei que também fingias escorregar por cima de mim.  Ter  por segundos o peso do teu corpo sobre o meu, era o mesmo que sentir o calor do sol me queimando. Eu sentia um arrepio percorrer meu corpo inteiro. O mel escorria de teus olhos, faziam eu  me  incendiar   como as chamas do sol.
Minhas emoções me assustavam. Eu corria de volta para casa, desejando ficar contigo. Dormia em uma cama quentinha, ao lado de minha irmã. Sentia  um misto de sensações que os jardins da ilha do faial me inspiravam. Minha  febre era  tão cálida como os raios do sol que castigava os pescadores. Eu pensava no frescor da relva, alastrada sobre a superfície das pedras, formadas por cinzas  de um vulcão apaziguado, depois de derramar  ardentes lavas sobre a ilha. Paisagens comuns para os açorianos, tomavam diferente sentido para mim. Tornaram-me sedenta, desejando beber todo o oceano que envolvia  a ilha e não alcançava o centro dela. Queria ser ousada e perseverante  como as hortênsias que cercavam  longos caminhos ,  avencas e flores silvestres que revestiam  a fina camada de terra, cobrindo as pedras,  enraizado-se junto delas.  O barulho do mar  bradava teu nome, não me deixando dormir.  Eu esperava jogares   a terceira pedra em minha janela para  pular em teus braços. Meu amor, acreditava estar   ancorando num porto  seguro. Naquela noite, o mar estava agitado, debatia-se contra as pedras e a tua voz descompassou meu coração, agitou a minha alma.  Deitada na areia,  deixei que fosses  as ondas do mar,  percorrendo todo o meu corpo.  Apenas o delicado linho das minhas vestes nos separava e era tão inconveniente quanto a luz da aurora  abreviando nosso encontro.
O delicado tecido, desistiu de se opor  entre nós, permitindo  semeares o meu ventre. Demorei a dar-me  conta  que o fruto do nosso amor crescia  dentro de mim. Durante pouco tempo, continuamos tropeçando em flores, deitando juntos nos campos  sem  que a prudente cortina de linho ocultasse meu corpo, protegendo-me do perigo. Ser tua namorada era a minha melhor e maior aventura. Meu sorriso ganhou um brilho diferente, e eu  dançava contente nas rodas em dias de festas. Não foi a minha alegria que nos separou, foi o teu egoísmo, acreditando em  mexericos  daquelas beatas da igreja. Não te importou com os meus sentimentos, passeavas de mãos dadas com a filha da irmã do padre Antonio. Ela nunca andou descalça na praia e não tropeçava em flores. Quando te procurei para  contar   sobre a minha gravidez, vi nos teus olhos um demônio. Naquele momento abri mão dos meus sonhos, e tudo que  referia-se  a eles. Tuas atitudes  abriram feridas, cravando em meu peito o punhal da duvida, oferecido por falsos amigos que  esperavam receberem dos meus lábios mais que um sorriso. Não aceitou falar com meus pais,   mas  jogou pedras em minha janela, me esperando na praia sem levar-me contigo quando o dia amanheceu. Fiquei desonrada na aldeia, deixei de andar  ao teu lado sobre flores, seguindo sozinha, pisando em espinhos.  Ainda te amando, não voltarei  a aproximar-me   do mar nem enredar-me nas ramas de cravinas. Mesmo sabendo que nunca te enviarei   estas palavras,  escrevo estas linhas em meu diário,  para que mesmo distante, eu possa sentir   o aroma  que vem do oceano, sempre que folhar as paginas deste diário, sempre, que eu sentir  saudades de ti... 


Alfonsina,  Com  medo do mar.  

Luana  caminhou pensativa, aproximando-se do móvel,  suspirou profundamente, sentindo no ar um suave aroma de flores silvestres que a antiga comoda ainda exalava.  Deslizou  as pontas dos dedos  sobre  o diário de Alfonsina, esbarrando numa lata  de tinta que deitou-se imprudente  sobre o papel, formando uma  indelével mancha, semelhante ao passado de Alfonsina. A jovem descendente da camponesa, ascendeu um cigarro e  ligou o aparelho de som para escutar algumas músicas, enquanto limpava aquela sujeira. Refletiu sobre o "acidente"  sem saber ao certo, se a lata de tinta deveria estar melhor  guardada, se o papel  poderia ser a prova de tinta, se as manchas... deram  um colorido especial  as palavras, e na vida de Alfonsina.





                                                                 Clara estrela 
                                                            Milton Nascimento 








                                                                Nei Lisboa
                                                            Não me pergunte a hora 




                                      Denize Domingos 





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