CONTOS DA BRISA DO SUL
Em memória aos lanceiros farroupilhas
Promessa de Liberdade
O Massacre dos Porongos
Em novembro de 1844, a fonte milagrosa de Cacimbinhas tornou rubras de vergonha suas águas. A traição manchou a história vertendo lágrimas de sangue nos olhos da imagem da santa Nossa Senhora da Luz. Apagaram-se as estrelas do pampa, alguns generais ficaram cegos de ambição. Época dos jasmins desabrocharem nos canteiros das casas grandes, mas não nascera livre em todo o pago a branca flor. Brisa, a cigana dos pampas colheu nas coxilhas braçadas de flores do malmequer. Depositou-as sobre cerca de 800 corpos estendidos no chão e soprou sobre eles a poeira vinda do continente africano. Devolveu aos cidadãos descendentes da África lembranças da pátria onde seus ancestrais eram livres. As mãos do mar não alcançam o pampa gaúcho, os escravos repousam em terras onde foram escravizados, sepultados em vala comum. Sem cruz nem identificação, jaz o corpo de oitocentos lanceiros. Enfim, conquistaram a paz!
O Despertar da Sentinela
Subitamente foi ceifada a vida do escravo sonhador, sem chance de defesa. A Brisa do Sul escutou o agonizante suspiro do homem negro, morto ao lado de outros lanceiros. Ele tenta-va se reerguer e continuar lutando com outros soldados, em troca da alforria. A cigana toca o rosto do guerreiro, tentando libertar a alma cativa do escravo. Quando foi armado pelo Exército Farroupilha, retiraram dos seus pulsos as algemas. Agora, continua preso a um corpo sem vida, procurando sua lança. Aquela foi a última batalha da Revolução, nos pagos gaúchos não há mais soldados lutando, só se escuta lamento! Nenhum Farroupilha, vivo ou morto, comemorou o fim da guerra! Em farrapos, fantasmas dos soldados mortos na revolução galopam seus cavalos, cavalgando livres nos pagos sem fronteiras, seguindo o Negrinho do Pastoreio.
Passaram meses depois daquela madrugada de primavera, o guerreiro sonhador é o único lanceiro que continua cativo. Crendo na promessa feita aos escravos, não escuta a Brisa dos Pampas sussurrando em seus ouvidos.
— Desperta do sonho de liberdade, sentinela Farroupilha, traiçoeiramente tombada. Morreste em emboscada, quando tua lança longe de ti repousava. Lanceiro Farrapo, teu suor não foi o bastante para enriquecer poderosos senhores, pagando altos impostos por fardos de charque que carregavas em tuas costas. Nos saladeiros, trabalhastes carneando gado, salgando a carne; na senzala, amargava tua sina.
Desperta do sonho, transformado em pesadelo, verás a pa-ga que recebestes por ter acreditado em ideais de generais.
A reforma que almejavam, era política e tributária. Queri-am livrar o Rio Grande das altas taxas de impostos cobradas pelo Império. Donos de escravos não são abolicionistas.
Desperta lanceiro, enfim, és homem livre!
Desfigurado, teu cadáver banhado em poça de sangue já descansa em cova rasa, sob solo Farroupilha. Após dez anos de revolução, a República foi devolvida ao Império. Sentinela Rio-grandense, desvenda os mistérios daquela vergonhosa noi-te no Cerro de Porongos.
A paz já foi lavrada em documento, formalizada entre Imperador e general republicano, tornando-os aliados.
Tecida em vantajosa trama, o tratado do Poncho Verde se-lou a paz entre senhores da guerra.
Uma negra sombra encobrindo verdades e calúnias pairou sobre o Rio Grande. Lanceiro, foi assinado com negro borrão de tinta o acordo do Ponche Verde manchando a história, de-sonrando a cor da tua pele e o lema da revolução.
Os cidadãos escravizados lutaram por liberdade, diferente daquela que Bento Gonçalves pregava. Promessas de senhores feitas aos negros de nada serviram. Livres, escravos não teriam valia aos senhores a quem serviam.
A promessa de alforriar os negros que lutaram em frente às tropas republicanas, seria um impedimento para firmarem o tratado de paz.
Mortos, os negros soldados bem treinados, exímios cava-leiros, não representariam ameaça, nem cobrariam seus direi-tos. O empasse foi resolvido na madrugada de 14 de novem-bro, em 1844. Davi Canabarro retirou dos lanceiros suas armas. Surpreendidos em emboscada, foram dizimados por tropas im-periais, sob comando de Pedro Abreu, o Moringue. O Barão de Caxias o havia instruído sobre formas de pacificar guerras. Na mesma madrugada, enquanto ocorria o massacre, Canabarro descansava na tenda, aos braços da amante Papagaia.
Meses após a última batalha Farroupilha, enfrentada sem resistência, em dezembro de 1845, o tratado de unificação foi assinado.
A paz do Poncho Verde se estendeu sobre coxilhas man-chadas com sangue africano. Num canto da consciência, crimes de guerra são sepultados e foi prescrito o julgamento de Cana-barro, jurando inocência.
Pesando sobre seu peito, general Bento Gonçalves usou to-das as medalhas condecoradas por Dom Pedro I, apresentando-se ao regente do Império, Dom Pedro II. Curvando-se diante do Imperador de 20 anos de idade, o herói Farroupilha, Bento Gonçalves, ofereceu-lhe a espada, entregando-lhe também a República Rio-grandense. A província havia sido separada do resto do Império do Brasil, sendo proclamada nação indepen-dente pela voz do general Antônio de Sousa Neto, após grande vitória de suas tropas na Batalha do Seival. Posteriormente, Bento Gonçalves recebe a notícia de ter sido aclamado Presi-dente. Das mesmas mãos que recebeu a República, escapa dez anos depois.
Silenciaram-se os gritos do general à frente das tropas or-denando: Avante, Farroupilhas, por uma República livre!
Bento Gonçalves, antes da morte, deixa inventário com cinquenta e três escravos aos herdeiros.
Murmura triste a Brisa, percorrendo campos de batalha. Em ermas madrugas, ela ouve protestos dos Farroupilhas que morreram honrando o lema re-publicano.
Verdades e calúnias pairam sobre o Rio Grande. O vento derruba frágeis paredes e alambrados, desmorona taperas, sólidas construções resistem, desvendando mistérios.









