quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vestígios Açorianos

                                                      VESTÍGIOS  AÇORIANOS 

 imagens ilustradas em azulejos, revelando histórias do passado...













Titulo: Chegada dos Casais Açorianos (foto),  de Augusto Luiz de Freitas,
Acervo do  IE Instituto de Educação de Porto Alegre

Homenagem aos imigrantes que não  chegaram no Brasil.  

Brasil, Vila do Rio Grande,  Maio de 1752

Estimado irmão
Pedro, valoroso amigo e irmão mais velho,  a muito tempo dividimos alegrias, angustias e segredos, ainda preciso  de ti. Já a alguns meses, todos que  resistimos a viagem, chegamos no Sul do Brasil, aportando  na  Vila do Rio Grande, rumando  esperançosos as Missões.
Os ilhéus,  assim somos  denominados,  ainda não fomos  assentados  nas terras  prometidas pela coroa Portuguesa,  tão pouco, obtivemos  dela, qualquer recurso.  Aqui há  muitas terras férteis, mas  passamos  por muitas necessidades. Há  precariedade de  abrigos, privações de remédios, mantimentos, ferramentas  e  escassez  de mudas e sementes para  plantio.
 O quarto de légua em quarto, concedido por cabeça de casal  imigrante,  ainda não foram demarcados.  Estamos nos alimentando precariamente com frutas, alguns legumes e hortaliças de fácil plantio e rápido crescimento. Os casais com crianças tem dificuldade em conseguir  uma vaquinha para ordenha. Nossos sonhos  são como  as  plantações de trigo, precisam  serem  semeados  em terrenos férteis onde  possam serem  cultivados e colhidos.  Amanha sedo,  surge uma nova esperança, sessenta casais serão conduzidos  até o Porto de Viamão, na sesmaria de Gerônimo de Ornellas. Estes  sessenta casais  serão os primeiros  ilhéus que  de lá,  partirão para povoarem alguma vila ou freguesia, onde se estabelecerão  em suas terras, para  começarem uma nova vida, impulsionado o desenvolvimento de uma nova cidade colonizada por nós.  
Querido irmão, parto para esta nova vida com metade de meu peito dilacerado. Sinto  informar-lhe que minha adorada esposa e filha não resistiram as agruras da viagem.  A pequena Maria adoeceu  depois de algumas semanas a bordo do navio. A água que  bebíamos era pútrida. Maria foi  definhando aos poucos e Luíza, não permitiu que a tirassem de seus braços para  resguardá-la em quarentena no porão. Minha amada companheira também  adoeceu,  vindo a falecer poucos dias depois de nossa pequenina.  Penso que Luiza  morreu de tristeza por  sentir o infortúnio de ter o corpinho de Maria inerte e gelado  junto ao dela.
Peço-lhe  a caridade de  guares este segredo, não contes  a ninguém, pois de nada adiantaria dividir com mais alguém o meu arrependimento e remorso por ter  embarcado nesta  ambiciosa aventura  arrastando comigo meu maior tesouro.
Os pais de Luiza se  horrorizariam  sabendo que a única filha e amada neta, flutuam  em desalento no mar, tendo suas almas vagando  pela praia, sem terem recebido as bênçãos de um santo padre. Rezo por elas a cada momento de minha triste vida, daqui pra frente, sei que meus dias serão eternamente gris.
Fecho meus olhos e as vejo, envoltas em velhas e manchadas lonas, amarradas em  desfiadas cordas, sendo lançadas ao mar. Com elas, foi-se  parte de mim, naufragaram  meus sonhos, e assim como eu, outras  almas entristecidas  precisam seguir vivendo.     Logo após desembarcar no porto da vila de Rio Grande, conheci uma viúva que   viajou no navio em que eu estive. Ela  também lamenta  a morte do marido. Sem  ilusões  no futuro,  unimos nossos destinos,  para compartilharmos  o pouco que nos restou de esperança.  Seremos um destes sessenta casais, que ao amanhecer estará  partindo uma vez  mais  para uma nova aventura.  Ao desembarcarmos  em algum  lugar longe da nossa querida ilha dos açores, qualquer porto será para nós o porto da saudade,  das dores ou de  Dolores, que será  no futuro, um Porto Alegre, pois   nossos descendentes açorianos, não saberão  da angustia que vivemos. Seremos lembrados por nossa coragem e espirito aventureiro, assim  desejamos. Haverão de celebrarem somente nossa coragem e as alegrias trazidas de nossa pequena ilha, e a esperança que para todo o sempre, em  nossas futuras gerações,  há de vingar.
Com saudades do irmão que muito lhe preza

Antonio  Luz Oliveira da Silva


DD  





                                                      Paulo Alexandre - Verde Vinho



















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