VESTÍGIOS AÇORIANOS
imagens ilustradas em azulejos, revelando histórias do passado...
Titulo: Chegada dos Casais Açorianos (foto), de Augusto Luiz de Freitas,
Homenagem aos imigrantes que não chegaram no Brasil.
Acervo do IE Instituto de Educação de Porto Alegre
Homenagem aos imigrantes que não chegaram no Brasil.
Brasil, Vila do Rio Grande, Maio de 1752
Estimado irmão
Pedro, valoroso amigo e irmão mais velho, a muito tempo dividimos alegrias, angustias e
segredos, ainda preciso de ti. Já a alguns meses, todos que resistimos a viagem, chegamos no Sul do Brasil,
aportando na Vila do Rio Grande, rumando esperançosos as Missões.
Os ilhéus, assim
somos denominados, ainda não fomos assentados
nas terras prometidas pela coroa
Portuguesa, tão pouco, obtivemos dela, qualquer recurso. Aqui há muitas terras férteis, mas passamos por muitas necessidades. Há precariedade de abrigos, privações de remédios, mantimentos,
ferramentas e escassez de mudas e sementes para plantio.
O quarto de légua em
quarto, concedido por cabeça de casal imigrante, ainda não foram demarcados. Estamos nos alimentando precariamente com frutas, alguns legumes e hortaliças de fácil
plantio e rápido crescimento. Os casais com crianças tem dificuldade em
conseguir uma vaquinha para ordenha. Nossos
sonhos são como as plantações de trigo, precisam serem
semeados em terrenos férteis
onde possam serem cultivados e colhidos. Amanha sedo, surge uma nova esperança, sessenta casais
serão conduzidos até o Porto de Viamão,
na sesmaria de Gerônimo de Ornellas. Estes sessenta casais serão os primeiros ilhéus que de lá, partirão para povoarem alguma vila ou
freguesia, onde se estabelecerão em suas
terras, para começarem uma nova vida, impulsionado
o desenvolvimento de uma nova cidade colonizada por nós.
Querido irmão, parto para esta nova vida com metade de meu
peito dilacerado. Sinto informar-lhe que
minha adorada esposa e filha não resistiram as agruras da viagem. A pequena Maria adoeceu depois de algumas semanas a bordo do navio. A água que bebíamos era pútrida. Maria foi definhando aos poucos e Luíza, não permitiu
que a tirassem de seus braços para resguardá-la
em quarentena no porão. Minha amada companheira também adoeceu, vindo a falecer poucos dias depois de nossa
pequenina. Penso que Luiza morreu de tristeza por sentir o infortúnio de ter o corpinho de
Maria inerte e gelado junto ao dela.
Peço-lhe a caridade
de guares este segredo, não contes a ninguém, pois de nada adiantaria dividir com
mais alguém o meu arrependimento e remorso por ter embarcado nesta ambiciosa aventura arrastando comigo meu maior tesouro.
Os pais de Luiza se horrorizariam sabendo que a única filha e amada neta,
flutuam em desalento no mar, tendo suas
almas vagando pela praia, sem terem
recebido as bênçãos de um santo padre. Rezo por elas a cada momento de minha triste
vida, daqui pra frente, sei que meus dias serão eternamente gris.
Fecho meus olhos e as vejo, envoltas em velhas e manchadas lonas, amarradas em desfiadas cordas, sendo lançadas ao mar. Com
elas, foi-se parte de mim, naufragaram meus sonhos, e assim como eu, outras almas entristecidas precisam seguir vivendo. Logo após desembarcar no porto da vila de Rio
Grande, conheci uma viúva que viajou no navio em que eu estive. Ela também lamenta
a morte do marido. Sem
ilusões no futuro, unimos nossos destinos, para compartilharmos o pouco que nos restou de esperança. Seremos um destes sessenta casais, que ao amanhecer
estará partindo uma vez mais para uma nova aventura. Ao desembarcarmos em algum lugar longe da nossa querida ilha dos açores, qualquer porto será para nós o porto da saudade, das dores ou de Dolores, que será no futuro, um Porto Alegre, pois nossos
descendentes açorianos, não saberão da
angustia que vivemos. Seremos lembrados por nossa coragem e espirito aventureiro, assim desejamos. Haverão de celebrarem somente nossa coragem e as alegrias trazidas de nossa pequena ilha, e a esperança que para todo o sempre, em nossas futuras gerações, há de vingar.
Com saudades do irmão que muito lhe preza
Antonio Luz Oliveira da
Silva
DD

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